6 de julho de 2026

Um candango compositor de destaque nacional

Por Hélio Tremendani e José Cruz

Sem exageros, a vida de Admilson Paiva Pereira da Silva (foto) é como uma ilha rodeada de música por todos os lados. Música e músicos; sons e embalos! E é nesse ritmo que ele avisa aos amigos e às comunidades do samba e do pagode, em especial, que “fará festa no ano que vem”. Será em 3 de março, para festejar os seus 50 anos de vida bem vivida, quase todo esse tempo no embalo da tradicional batida do samba e do pagode.

Coincidentemente, 2027 faz 110 anos da gravação do primeiro samba, “Pelo Telefone”, de Donga e Mauro de Almeida

 O brasiliense Admilson é Milsinho, conhecido cavaquinista e intérprete das rodas musicais do Brasil, com passagem, inclusive, pelo prestigiado grupo Fundo de Quintal. Ele poderia ter sido craque no gol. Por alguma influência do pai, jogava futebol como todo garoto, até o dia em que ganhou um cavaquinho e deixou fluir o DNA da família. Agora, nessa contagem para se tornar cinquentão, Milsinho recorda:

“Comecei cedo o meu envolvimento com o samba, quando tinha 11 anos. Tudo motivado pelos pais e familiares, cariocas, envolvidos com o bom ritmo

 Origens

Minha família é carioca de tradicionais redutos do samba, Caxias, Madureira, Ilha do Governador, Pilares”, revela Milsinho sobre a origem de tanta influência.

O pai de Milsinho, Armando Pereira, mangueirense e ex-árbitro de futebol, foi fundador e diretor da Escola de Samba da Capela Imperial, em Brasília.

“Papai escutava muito Os Originais do Samba e Demônios da Garoa”, revela. Já a mãe, Edna, gostava de serestas, adora cantar e sambar. Tudo por influênciado Vô Jâncero, que era boêmio, amigo do grandemaestro, compositor e clarinetista Severino Araújo, da Orquestra Tabajara.

A influência da família é maior: um primo de Milsinho, Hildebrando Matos, compôs com Zé Keti um dos clássicos do repertório nacional, “Máscara Negra”, marcha-rancho consagrada na voz de Dalva de Oliveira.

Cria brasiliense

Além dessa proximidade com familiares cariocas, Milsinho reforça: “Sou cria da QNL de Taguatinga, também reduto de cariocas, onde rola boa música. Estáclaro que tanto em casa quanto na comunidade onde nasceu e cresceu o ambiente sempre foi propício para que Milsinho se interessasse pela arte musical.

Na infância, valia tudo para Milsinho aprender a tocar: prato, balde, colher…. Se saía som servia para improvisar e acompanhar as festas em família, tudo com muita batida de samba. “Música em festas e em velórios, aparta Milsinho, porque sambista que se preze toca na alegria e na tristeza, na festa e no velório, no momento da despedida, no melhor estilo gurufim, tão divulgado por Zeca Pagodinho.

Gurufim”, do vocabulário de Angola, significa “adeus”, “despedida”, refere-se a um ritual fúnebre que mistura luto e celebração. O gurufim é marcado por música, dança, comida e bebida, sendo um rito muito comum nas comunidades afro-brasileiras e no universo do samba.

Cavaquinho

Com 9 anos ganhei um cavaquinho do meu pai. Fui tocando sozinho, descobrindo notas e acordes e cada vez gostando mais do instrumento, até que aprendi, conta Milsinho. Antes, porém, houve o aprendizado de um repique de mão,percussão que segura a levada e dá molho ao samba e ao pagode.

Cavaquinista e vocalista, Milsinho começou carreira no InspiraSamba, popular grupo, também de pagode, quando tinha apenas 13 anos. Depois foi para o Só Raízes, o Sedusamba e em 1993, com16 anos, integrou o grupo de pagode brasiliense Amor Maior, onde se destacou como vocalistas, ganhando expressão como um dos maiores intérpretes da Capital.

Fundo de  Quintal

Em 2011, já com 34 anos, Milsinho gravava seu primeiro disco no Rio de Janeiro quando encontrou “Seu Ademir”, do grupo Fundo de Quintal. Os dois já se conheciam, pois Milsinho abriu vários shows do Fundo, em Brasília e daí surgiu a amizade entre os dois.

Depois daquele encontro casual, Ademir ligou para Milsinho o convidou para “tocar com a gente”. No início, Milsinho não imaginava que seria integrando o Fundo de Quintal. Acreditou que se tratava de apresentações esporádicas no Rio, enfim. Mas não, a coisa era bem mais séria e profissional.

O convite seria para substituir o cavaquinista titular Flavinho Silva, que estava hospitalizado. E assim, o brasiliense se integrou ao grupo carioca com participação marcante, porém rápida, por cerca de dois meses. Ainda hoje, ele se orgulha de ter integrado um dos pilares do samba brasileiro, o Fundo de Quintal, nascido no histórico bairro de Cacique de Ramos.

O primeiro show foi no Pagode do Trem, em Osvaldo Cruz, apresentação que Milsinho guarda boa lembrança:

O Fundo de Quintal foi a minha faculdade. É o maior grupo de samba do mundo. Tenho o máximo respeito. É um grupo que eu ouvia desde criança

 Amor Maior

Quando começou pra valer na vida artística, Milsinhointegrou a primeira formação do Amor Maior, com o seu tio Juninho Taguá, Alexandre Cidade e  Wiliam Nariz. Depois, entraram os irmãos Sandrinho e Carlinhos, primos de Milsinho.

No roteiro de sua jornada musical, Milsinho foi intérprete da Aruc, quando conheceu e fez dupla com “o inesquecível Vareta”, apelido de Welington Campos (1957-2025), compositor e carnavalesco, com o qual ganhou o estandarte de ouro de um Carnaval brasiliense pela composição de um samba e, também, como intérprete.

O bom debate

No debate entre “samba” e “pagode” Milsinho não se esconde. O que seria do Pagode 90 se não fosse o samba 80?

“O samba é mais tradicional, mais raiz”, resume Milsinho. Já no debate acadêmico, “o samba é o gêneromatriz, com foco na tradição. O pagode, por sua vez e o subgênero” nascido na década de 1980, trazendo o tantã, o banjo e letras mais românticas e com perfil para festivas de rádio.

Na visão da já íntima “IA” (Inteligêcia Artificial), que busca informações na rede para produzir a síntese de um determinado tema, “a principal diferença entre samba e pagode se dá pela instrumentação, ritmo e temática, com o samba sendo mais amplo e o pagode mais voltado ao romantismo e à dança.

Porém, Milsinho não se limita e acaba cantando canta um e outro.Seguindo exemplos de casa, sou um guerreiro sobrevivente”, diz ele. “Não me limito à mesmice, tenho o tradicional como base, mas canto pagode, também, pois gosto muito, tanto pela letra quanto pela melodia. Isso vem de família”, resume.

 Identidade

Como artista, Milsinho revela que é “muito fã” de compositores como Altay Veloso, André Renato, Arlindo Cruz, Jorge Aragão, Mário Sérgio, Cléber Augusto e Almir Guineto.

 Brasília musical

O samba tem o seu espaço em Brasília. Sinto a cidade agregadora. Antes, a parte musical da cidade era mais vista por conta do Clube do Choro que é, de fato, uma referência nacional.

Brasília é um quadrado no meio do estado de Goiás, é uma resistência, uma fortaleza e a ARUC é resistência na defesa e na divulgação do samba. O samba sempre esteve no meio desse debate da resistência, do bairrismo, do regionalismo. Lembrando que o samba no Rio é mais acelerado, enquanto o que se toca em São Paulo é mais cadenciado e aí se cria a disputa de que um é melhor que o outro, com as mídias radiofônicas sempre nesses dois polos, era guerra o dia todo. E Brasília ficava olhando esse debate, essa disputa, sem ser referência. Foi quando começaram a migrar cariocas que aqui criaram nichos que enfrentariam o mercado. E Brasília acabou se tornando referência para tudo, para o rock, inicialmente, depois a música sertaneja, o choro e o samba, que chegou forte. Não se perdeu mais o espaço e nos tornamos importantes no samba e do pagode, também, até mais que o sertanejo.

O samba vive nova realidade, pois foi para a rua, estoura no Eixão, nas satélites, no Setor Bancário, no Buraco do tatu. É a voz das comunidades, Guariroba, Sobradinho, Samabaia...

Pra mim, iniciar a carreira ainda jovem, 12, 13 anos, conhecer cobras do samba e do pagode, integrar o Fundo de Quintal por um tempo, lembrar que abri vários shows, enfim, tudo isso tem grande valor e vale muito para o artista

Principais lançamentos de Milsinho

 2018 Eu Compositor 1 (Ao Vivo) – este registro consolidou seu nome como compositor no cenário brasiliense.

2019 Eu Compositor, 2 Ed. (Ao Vivo) Continuação, reunindo sucessos e novas composições.

2019Do PovoOriginado do show histórico de gravação de seu DVD homônimo no Taguaparque.

2023A Voz Do Poeta – reforça sua identidade e seu legado na música popular e no samba de raiz.

2023 É Deus por NósLançado em 2023, é um de seus trabalhos mais recentes com forte apelo emocional e religioso dentro do gênero.

 

Hélio Tremendani e José Cruz, com Milsinho, ao centro, na tradicional foto ao término da entrevista. Bom de papo, muitas histórias e simpático em suas narrativas, Milsinhoé um legítimo sambista candango do qual a cidade deve muito se orgulhar. Prestigiado nacionalmente, inclusive por ter integrado o grupo Fundo de Quintal, Nilsinho tem chão pela frente e, assim, manter viva a tradição musical que herdou de sua família.