21 de janeiro de 2026

 TOINHA: Pivô que marcou época no futebol salão e na gestão do esporte

Com esta reportagem abrimos a temporada de entrevistas de 2026, quando comemoramos o quinto ano de ininterruptas publicações

Desde a infância, o nome Antônio Carlos Silva Freire foi reduzido para “Toinha”, apelido desse pernambucano de Recife, que aqui chegou com a família em 1966 e fez carreira, no futebol de salão daquela época – o futsal de hoje – e fora das quadras, como gestor de esporte.

Toinha (foto) conheceu o esporte na educação física que praticou na escola. Fora dali, era peladeiro, como todo garoto, sonhando com participações em grandes eventos.

Hoje, com 66 anos (completará 67 em 10 de maio), Toinha integra a consagrada “Geração Dom Bosco”, grupo de profissionais formados na Faculdade Dom Bosco de Educação Física, entidade que marcou época no ensino superior. Tal geração teve e tem participação efetiva na evolução do esporte da capital brasileira, quer como atleta quer como gestor esportivo.

“Na escola joguei muito handebol e até disputei competições escolares. Mas havia só dois times na cidade, Ascade e Sucata, com campeonatos de pouca motivação. Eu queria algo mais movimentado, mais disputado”

Assim, enquanto avançava na idade, Toinha fazia a transição para o futebol de salão, esporte de grande apelo na cidade, deixando o handebol na saudade. E seguia nos estudos, até se formar em Educação Física, em 1979.

Campeão e artilheiro

“Inicialmente, joguei futebol de salão num time de empresa, a Transportadora F. Souto”, recorda.

No time da F. Souto Toinha se destacou no torneio “Aberto da Aruc”, competição gigantesca com mais de 100 equipes participantes, naqueles primeiros anos da cidade, ainda em construção.

Num desses eventos ele foi o artilheiro e chamou a atenção de Marcos Vinícius Santa, o Marcão, da Aruc, que convidou o amigo para jogar no seu time. Tudo acertado, Toinha passou a defender o clube azul e branco do bairro Cruzeiro. A Aruc é conhecida, ainda hoje, como a agremiação supercampeã do Carnaval Candango.

Em 1981, no Aberto da Aruc, a primeira competição que disputou pelo novo time, Toinha sagrou-se campeão e ganhou o troféu de artilheiro. Em 1982, a Aruc repetiu o pódio de campeã e foi disputar o Campeonato Brasileiro, em Fortaleza, onde terminou em quinto lugar.  Considerado o melhor pivô da época, Toinha reconhece que havia outros jogadores muito bons, na mesma posição.

“Tivemos bons pivôs na minha geração, como o Zé Carlos e o Paulinho Gordo”, afirmou.

“Mas o Toinha, do alto de seus 1,86m, fazia a diferença e muitos gols”, reforça Hélio Tremendani, diretor da Aruc e fundador da “Memoria da Cultura e do Esporte”, que acompanha as reportagens e contribui muito para recuperar dados “daqueles tempos”, que ele participou como expectador e atleta.

Novas mudanças

Em 1983 Toinha trocou de time e foi jogar na Asmec, onde se sagrou bicampeão da cidade, logo nas duas primeiras temporadas atuando pela nova equipe. Naqueles tempos, os jogos eram disputados em vários ginásios, entre eles o Minas Tênis, Cláudio Coutinho, o Iate, Clube dos Servidores, Economiários…

Equipe de futsal do Iate Clube, anos 1980

Novos campeonatos se sucederam e as mudanças de clubes também.

“Da Asmec fui para o Setor Leste, enquanto já trabalhava como professor de educação física, numa escola de Planaltina”, contra Toinha.

Com a cabeça “sempre nas quadras”, outros clubes entraram no roteiro do atleta: passou pela Afusta – Associação de Futebol de Salão de Taguatinga, em 1987 e, no ano seguinte, Iate Clube de Brasília, onde integrou o time que se sagrou tetracampeão da cidade. “Trabalhava e jogava”, conta Toinha sobre as rotinas da época.

A vez do gestor

Fora das quadras, os convites também surgiam, como do amigo Marco Aurélio, o Marquinhos, que chamou Toinha para trabalhar no Cief – Centro Interescolar de Educação Física – e ali ajudar na gestão dos Jogos Escolares do Distrito Federal, o que aconteceu até fins de 1991.

Nessa função Toinha também se destacou e em 1990 fez uma pausa no Cief para colaborar com a Secretaria de Esporte do Governo Federal, para a qual foi convidado. À época, o titular da pasta era o craque Zico, consagrado ex-atacante do Flamengo. Ali, Toinha coordenou o torneio de futsal dos Jogos Escolares e Brasileiros e do Jogos Escolares Sul-Americano.

Homenagem

Destacado pivô, professor e gestor de esporte, Toinha não foi ignorado pela crônica esportiva e acabou sendo eleito durante três temporadas, pelos jornalistas esportivos da cidade com o Troféu da Associação Brasiliense dos Cronistas Desportivos (ABCD). Tudo isso nos anos 1990.

Em 1992, quando foi vice-campeão de futebol de salão de Brasília, ainda no Iate Clube, Toinha foi eleito o melhor jogador da temporada, recebendo o troféu do então presidente da Federação de Futebol de Salão, Cláudio Nunes.

Ao final daquela temporada, já com 33 anos, Toinha,  satisfeito com a carreira que cumprira, encerrou a fase profissional. Passou a jogar torneios internos de clubes só para se divertir.

Os melhores

Trocando ideias e lembranças com Hélio Tremendani, Toinha vai citando os melhores jogadores que viu jogar nas décadas de 1980/1980, a maioria dos quais ele dividiu a quadra: Dirceu, Redinau e Cebola eram ótimos diz ele. “E você, Toinha”, completa Hélio Tremendani, provocando um sorriso de satisfação no amigo.

“O pivô que eu admirava era o Renato, da Embrapa, além de Gilsão e Zé Mauro. Eram ótimos. E tinha o Fitinha, excelente goleiro”, continua Toinho.

Outros nomes que ele recorda: Maurinho, que na década de 1980 jogou no SUMOV E AABB e foi convocado para a Seleção Brasileira. Foi o melhor beque parado de todos os tempos; e o seu filho Reniê atualmente joga no Atlético Mineiro.

“Na década de 1990, o pivô César Paulo foi para a Seleção Brasileira e depois foi jogar em Portugal. Nino, também era muito bom. Axel, sem dúvida, foi o melhor daquela geração, assim como Guayacá, muito bom.

Professor

Com essa experiência de atleta e gestor, Toinha dedicou-se ao magistério, no Colégio Setor Leste, tradicional educandário de Brasília. E levou a saudade dos tempos do Cief.

“O Cief, na mesma área do Colégio Elefante Branco, era o grande centro esportivo de Brasília. Ali tínhamos desde a iniciação do atletismo, natação e outras modalidades de quadra. Era tudo concentrado ali, foi uma grande referência para o esporte escolar de Brasília”.

Toinha ficou no Setor Leste até 1998. Ali, ele montou um time de futebol de salão que se sagrou tricampeão dos Jogos Escolares do Distrito Federal.

No Ministério

Em 1999, o então professor foi removido para a Escola Parque da 107Sul, onde ficou até 2002, quando foi convidado para integrar a equipe do então ministro do Esporte, Agnelo Queiroz, lotado na diretoria do Esporte Educacional, programa Segundo Tempo.

Nessa condição e por sua experiência no setor, Toinha coordenou a delegação brasileira nos Jogos Estudantis Sul-Americanos, realizados em 2003, 2004 e 2005, respectivamente na Bolívia, Argentina e na Colômbia.

Na sequência dessa rotina de gestor e docente, em 2011 Toinha foi para a Secretaria Geral da Secretaria de Esporte do DF. Depois, voltou ao Cief e, finalmente, para o Centro Educacional Caseb, um dos primeiros educandários de ensino fundamental em Brasília. Ali, o grande craque que fez do esporte a sua carreira em tempo integral, nas quadras e fora delas se aposentou “de tudo”, em 2017.

Equipe de futsal da Aruc, 1981

“Faria tudo de novo. Adorei cumprir essa jornada. Fica muita saudade, desde o início, da chegada na Aruc, uma das referências dos meus tempos. Pelas circunstâncias, fui jogar em outros times, mas sempre muito bem recebido e muito bem tratado”

Dois tempos

Das lições nessa jornada em quem mais ensinou, Toinha revela o contraste que conheceu no desporto escolar: no início, apenas com recursos públicos, por isso com limitações, mas muita criatividade. A partir de 2001, com os Jogos Escolares já sob o comando do Comitê Olímpico do Brasil e recursos das loterias federais, houve mudanças significativas, “mas tudo concentrado no dinheiro, com viagens de avião, hospedagens em hotéis, mudanças nos modelos de competições, tudo contrastando com as origens dos JEBs.

“Antes, os Jogos eram mais românticos, havia mais confraternização, era mais escolar, de fato. Agora são outros tempos”, compara, com a experiência que viveu, aí incluindo a participação de sete Jogos Universitários Brasileiros (JEBs), sendo uma na delegação de handebol e seis na de futsal. Nesse desempenho, acabou convocado para a Seleção Brasileira Universitária, em 1984.

Encontro da saudade

Casado com Sônia, o casal foi morar na Metropolitana, bairro na sequência do Núcleo Bandeirantes. Ali, ele encontrou o ex-colega Potiguar, também formado na Faculdade Dom Bosco e a rotina se criou: sexta-feira era dia de encontrar o amigo no Mercadão, uma das referências de reuniões para “uma gelada”, na região.

Amigos de todos os tempos: encontro marcado no Mercadão

Outros ex-colegas apareceram e aí surgiu a ideia de fazer um encontro a “geração Dom Bosco”.

“Era um encontro por semestre. Agora são dois. Apareceu muita gente que se formou naquela faculdade” afirma Toinha, entusiasmado com o resultado de reunir amigos e ex-colegas.

“Esses encontros chegam a reunir 60 pessoas aqui no Mercadão do Bandeirantes. Adversários que fomos nas quadras, hoje somos amigos. E rimos muito do que recordamos, das confusões em que nos metemos, inclusive. É muito bom para matar a saudade, recuperar a memória e `causos´ daqueles tempos”…

Outros encontros do gênero se realizam. Por exemplo, o que é promovido anualmente por Renato Artuch, sempre concorrido, reunindo os pioneiros do futebol de salão em Brasília (foto)

Tradicional foto ao final das entrevistas:

Toinha, ao centro, com José Cruz e Hélio Tremendani.