Por Hélio Tremendani e José Cruz
Coincidentemente, 2027 faz 110 anos da gravação do primeiro samba, “Pelo Telefone”, de Donga e Mauro de Almeida
O brasiliense Admilson é Milsinho, conhecido cavaquinista e intérprete das rodas musicais do Brasil, com passagem, inclusive, pelo prestigiado grupo Fundo de Quintal. Ele poderia ter sido craque no gol. Por alguma influência do pai, jogava futebol como todo garoto, até o dia em que ganhou um cavaquinho e deixou fluir o DNA da família. Agora, nessa contagem para se tornar cinquentão, Milsinho recorda:
“Comecei cedo o meu envolvimento com o samba, quando tinha 11 anos”. Tudo motivado pelos pais e familiares, cariocas, envolvidos com o bom ritmo”
Origens
“Minha família é carioca de tradicionais redutos do samba, Caxias, Madureira, Ilha do Governador, Pilares”, revela Milsinho sobre a origem de tanta influência.
O pai de Milsinho, Armando Pereira, mangueirense e ex-árbitro de futebol, foi fundador e diretor da Escola de Samba da Capela Imperial, em Brasília.
A influência da família é maior: um primo de Milsinho, Hildebrando Matos, compôs com Zé Keti um dos clássicos do repertório nacional, “Máscara Negra”, marcha-rancho consagrada na voz de Dalva de Oliveira.
Cria brasiliense
Além dessa proximidade com familiares cariocas, Milsinho reforça: “Sou cria da QNL de Taguatinga, também reduto de cariocas, onde rola boa música”. Estáclaro que tanto em casa quanto na comunidade onde nasceu e cresceu o ambiente sempre foi propício para que Milsinho se interessasse pela arte musical.
Na infância, valia tudo para Milsinho aprender a tocar: prato, balde, colher…. Se saía som servia para improvisar e acompanhar as festas em família, tudo com muita batida de samba. “Música em festas e em velórios, aparta Milsinho, porque sambista que se preze toca na alegria e na tristeza, na festa e no velório, no momento da despedida, no melhor estilo gurufim, tão divulgado por Zeca Pagodinho.
Gurufim”, do vocabulário de Angola, significa “adeus”, “despedida”, refere-se a um ritual fúnebre que mistura luto e celebração. O gurufim é marcado por música, dança, comida e bebida, sendo um rito muito comum nas comunidades afro-brasileiras e no universo do samba.
“Com 9 anos ganhei um cavaquinho do meu pai. Fui tocando sozinho, descobrindo notas e acordes e cada vez gostando mais do instrumento, até que aprendi”, conta Milsinho. Antes, porém, houve o aprendizado de um repique de mão,percussão que segura a levada e dá molho ao samba e ao pagode.
Cavaquinista e vocalista, Milsinho começou carreira no InspiraSamba, popular grupo, também de pagode, quando tinha apenas 13 anos. Depois foi para o Só Raízes, o Sedusamba e em 1993, com16 anos, integrou o grupo de pagode brasiliense Amor Maior, onde se destacou como vocalistas, ganhando expressão como um dos maiores intérpretes da Capital.
Fundo de Quintal
Em 2011, já com 34 anos, Milsinho gravava seu primeiro disco no Rio de Janeiro quando encontrou “Seu Ademir”, do grupo Fundo de Quintal. Os dois já se conheciam, pois Milsinho abriu vários shows do Fundo, em Brasília e daí surgiu a amizade entre os dois.
Depois daquele encontro casual, Ademir ligou para Milsinho o convidou para “tocar com a gente”. No início, Milsinho não imaginava que seria integrando o Fundo de Quintal. Acreditou que se tratava de apresentações esporádicas no Rio, enfim. Mas não, a coisa era bem mais séria e profissional.
O convite seria para substituir o cavaquinista titular Flavinho Silva, que estava hospitalizado. E assim, o brasiliense se integrou ao grupo carioca com participação marcante, porém rápida, por cerca de dois meses. Ainda hoje, ele se orgulha de ter integrado um dos pilares do samba brasileiro, o Fundo de Quintal, nascido no histórico bairro de Cacique de Ramos.
O primeiro show foi no Pagode do Trem, em Osvaldo Cruz, apresentação que Milsinho guarda boa lembrança:
“O Fundo de Quintal foi a minha faculdade. É o maior grupo de samba do mundo. Tenho o máximo respeito. É um grupo que eu ouvia desde criança”
Amor Maior
Quando começou pra valer na vida artística, Milsinhointegrou a primeira formação do Amor Maior, com o seu tio Juninho Taguá, Alexandre Cidade e Wiliam Nariz. Depois, entraram os irmãos Sandrinho e Carlinhos, primos de Milsinho.
O bom debate
No debate entre “samba” e “pagode” Milsinho não se esconde. O que seria do Pagode 90 se não fosse o samba 80?
“O samba é mais tradicional, mais raiz”, resume Milsinho. Já no debate acadêmico, “o samba é o gêneromatriz, com foco na tradição. O pagode, por sua vez e o subgênero” nascido na década de 1980, trazendo o tantã, o banjo e letras mais românticas e com perfil para festivas de rádio”.
Na visão da já íntima “IA” (Inteligêcia Artificial), que busca informações na rede para produzir a síntese de um determinado tema, “a principal diferença entre samba e pagode se dá pela instrumentação, ritmo e temática, com o samba sendo mais amplo e o pagode mais voltado ao romantismo e à dança”.
Porém, Milsinho não se limita e acaba cantando canta um e outro. “Seguindo exemplos de casa, sou um guerreiro sobrevivente”, diz ele. “Não me limito à mesmice, tenho o tradicional como base, mas canto pagode, também, pois gosto muito, tanto pela letra quanto pela melodia. Isso vem de família”, resume.
Identidade
Como artista, Milsinho revela que é “muito fã” de compositores como Altay Veloso, André Renato, Arlindo Cruz, Jorge Aragão, Mário Sérgio, Cléber Augusto e Almir Guineto.
Brasília musical
“O samba tem o seu espaço em Brasília. Sinto a cidade agregadora. Antes, a parte musical da cidade era mais vista por conta do Clube do Choro que é, de fato, uma referência nacional”.
O samba vive nova realidade, pois foi para a rua, estoura no Eixão, nas satélites, no Setor Bancário, no Buraco do tatu. É a voz das comunidades, Guariroba, Sobradinho, Samabaia”...
Pra mim, iniciar a carreira ainda jovem, 12, 13 anos, conhecer cobras do samba e do pagode, integrar o Fundo de Quintal por um tempo, lembrar que abri vários shows, enfim, tudo isso tem grande valor e vale muito para o artista
Principais lançamentos de Milsinho
2018 – Eu Compositor 1 (Ao Vivo) – este registro consolidou seu nome como compositor no cenário brasiliense.
2019 – Eu Compositor, 2 Ed. (Ao Vivo) – Continuação, reunindo sucessos e novas composições.
2019 – Do Povo – Originado do show histórico de gravação de seu DVD homônimo no Taguaparque.
2023 – A Voz Do Poeta – reforça sua identidade e seu legado na música popular e no samba de raiz.
2023 – É Deus por Nós – Lançado em 2023, é um de seus trabalhos mais recentes com forte apelo emocional e religioso dentro do gênero.
Memórias da Cultura e do Esporte de Brasília