Por Hélio Tremendani e José Cruz
Aos 63 anos, com boa disposição e ainda atuando no segmento do futebol, Wando lembra “daqueles tempos”, quando começou no esporte. Wando é Geovânio Bonfim Sobrinho (foto), carioca que veio ainda criança para Brasília, se profissionalizou no futebol e atuou no ataque de vários times, o Benfica, de Portugal, inclusive.
Porém, a carreira desse atleta começou, mesmo, na pista (foto abaixo) de atletismo do CIEF (Centro Interescolar de Educação Física), em Brasília, ao lado do tradicional colégio Elefante Branco.
Incentivado pelo técnico Mingo (Domingos Antônio Guimarães, Wando corria os 100 metros rasos e praticava o salto em distância. À época, o seu objetivo era derrotar um japonês, na velocidade. Nunca conseguiu.

“Eu corria com um tênis Conga e ele, o japonês, já usava sapatilha com pregos, própria para as provas de atletismo em pista de borracha”, diz Wando
Futebol
Fora do atletismo, Wando jogava futebol nos campos das QNGs de Taguatinga, onde era orientado por outro técnico, “Seu Elias”.
Já no seus desejos de adolescente, ele sonhava: “Um dia, vou ter uma casa com piscina”, um desejo que mentalizou e realizou. A entrevista que rendeu esta reportagem foi concedida por Wando em sua espaçosa casa, na reta final da decoração, com piscina e campo de futebol, num condomínio nos arredores da capital da República. Bem como ele sonhava

Voltando ao reduto da juventude, certa vez quando estava 16 anos, Wando passava pelo Beco do Mijo, no Taguacentro, e foi abordado por um amigo que o levou para um treino no Brasília Futebol Clube, no estádio Mané Garrincha, ainda com a construção original. Wando tinha a vantagem da prática do atletismo, desenvolvendo ótima velocidade e isso chamava atenção nas suas peladas no futebol.
Foi assim que esse meia esquerda foi observado pelo técnico “Seu Didi”, pai de Péricles, um jogador de futebol que marcou época em Brasília.
“Eu corria muito e cruzava a bola pra área. Eu era mais para dar assistência do que fazer gols, mas marcava também. Depois de cinco minutos, Seu Didi me tirou do treino e mandou falar com a Comissão Técnica. Saí da sala com um monte de papeis, era o tal contrato de gaveta”, conta Wando.
A prática do futebol ficou séria e ele precisava contar para os pais, que não sabiam da sua ousada iniciativa esportiva. “A conversa foi séria, eu estava decidido a investir no futebol e eles aceitaram”, recorda.
Num dos treinos em outro estádio, o Pelezão, destruído há mais de dez anos pelos especuladores imobiliários, o técnico Erci Rosa viu e gostou do desempenho de Wando. Tirou o garoto do time infantil e o escalou no juvenil. O grupo era patrocinado pela Adidas. “O atletismo me ajudou a virar um ponta esquerda, e nunca mais voltei para as pistas de corrida”, recorda.
Seleção
“Eu era muito bom e o Erci me ajudou a crescer nas categorias. Antes de chegar a titular, quando tinha 16 anos fui convocado para a Seleção de juniores de Brasília, treinada pelo técnico Bouglê, ex-jogador revelado pelo Atlético-MG, que se tornou famoso por ter marcado o primeiro gol na inauguração do estádio Mineirão, em Belo Horizonte. Foi num jogo contra o River Plate (1×0 para a Seleção Mineira)”, relembra Wando.
Foi nessa Seleção de juniores que Wando disputou os JEBs (Jogos Escolares Brasileiros), realizados em Brasília, quando foi observado por Joel Santana, que treinava a Seleção do Rio de Janeiro. O convite para ir treinar no Vasco da Gama não demorou. E lá se foi Wando, “já ganhando um dinheiro”, junto com outros dois jogadores brasiliense, Jussiê e Souza. Nessa época, ele morava nas acomodações do próprio clube, sob a arquibancada.
Quando o jogador fez 17 anos, pintou convite para ir jogar no Braga, de Portugal, que tinha mandado um emissário buscar algumas “promessas” no Vasco da Gama.
A primeira temporada de Wando em Portugal foi em 1982, quando estava com 18 anos. A data é inesquecível, pois foi o mesmo ano em que o Brasil perdeu o Mundial de Futebol para a Itália. “Lembro dos portugueses chorando a derrota brasileira. Eles diziam que nunca tinham visto futebol tão bonito”, recorda Wando. Pudera, pois aquela Seleção time comandada por Telê Santana tinha craques de primeira grandeza: Júnior, Leandro, Toninho Cerezo, Zico, Sócrates, Falcão… Pelo Braga, Wando disputou 60 jogos e marcou 11 gols.
O tempo passou. Certa noite, já da segunda para a terceira temporada em Portugal e quando estava com 22 anos, Wando acordou com uma inesperada visita ao seu quarto de hotel: eram emissários do Benfica que foram fazer uma proposta para ele.
“Eu rompi a tradição de os clubes conversarem antes. O pessoal do Benfica (escudo ao lado) foi diretamente falar comigo e assim acabei cumprindo duas temporadas nesse clube português, 1984 e 1985”, diz Wando (foto). Nessa época, o brasileiro já tinha “nome” em Portugal, onde era conhecido como o rei do samba. “Eu fazia gol e sambava”, relembra. “Tinha moral alta”, como se diz, inclusive entre outros brasileiros que por lá jogavam, como Zinho e Sérgio Pinto.
Nessa passagem pelo Benfica (de 1984 a 1989) o brasileiro disputou final da Taça dos Campeões Europeus, a atual Champions League, em jogo único contra o PSV Eindhoven, realizado em Stuttgart. O PSV se sagrou campeão, nos pênaltis. Na temporada seguinte, o atacante brasileiro Romário era contratado pelo PSV.
Memória
Nas lembranças de sua passagem pela Europa, Wando destaca um clássico português, Benfica x Sporting, no Estádio da Luz. Defendendo o Benfica, ele resumiu o jogo: “Foi vergonhoso. Tomamos um sacode de 7×1 do Sporting. O único gol que fizemos foi meu, de cabeça. Mas, na semana seguinte, ganhamos por 5×0. Fiz dois gols. Além de assistências eu também fazia gols”, recorda.
Quer trocar
Wando mantém a alegria e conta histórias de sua carreira. Certa vez, levou uma namorada para a Turquia, onde jogou pelo Konyaspor (1991 – 19920). Era Silvia, uma loira bonita que despertou o interesse dos turcos a ponto de fazerem uma proposta para Wando, uma troca muito comum por lá, mas inusitada para os nossos costumes: trocar Silvia por cinco camelos…
Wando e Silvia tomaram a proposta não como ofensa e levaram a ideia na brincadeira. “Como vou levar os camelos para o Brasil”? – respondeu Wando, com bom humor, encerrando a proposta.
Em 1992 Wando retornou ao Brasil, avaliou que era hora de parar e assim fez. Aqui ele se casou cinco vezes. Tem seis filhos, sendo um adotado. Desse “time”, apenas o caçula Giovanni, com 19 anos, seguiu a carreira do pai, jogando na ponta esquerda do Fluminense, no Atlético-MG, Atlético Goianense e um time da Croácia. Atualmente está se decidindo pelos estudos, mas com possibilidade de ir para um clube de Portugal, onde Wando deixou amigos. “Até o meio do ano ele resolve”, diz Wando.
Investidor
“Hoje sou um investidor. Compro e vendo imóveis, assessorado pela doutora Lívia Bonfim, minha esposa”.
Mas é, também, um “avaliador de atletas”, isto é, seleciona jovens candidatos a jogador, faz avaliação dos que se destacam e os encaminha para um empresário. “Sou uma espécie de caça talentos” de garotos que estão na hora de entrar no mercado, resume. Se o garoto aprovar e assinar contrato profissional, “aí é que a gente ganha”.
Realidade
Sobre o futebol brasileiro, Wando é crítico:
“Nosso futebol está escasso de jogadores com habilidade. É só passe, só passe… O futebol na Europa virou o do Brasil nos anos passados. Inverteu-se a situação, decaímos muito. Neymar é o único que tem a atitude de fazer jogada de efeito. Torço pela recuperação dele e que possa jogar a Copa dos Estados Unidos”
Favoritos
Ainda sobre Copa, Wando avalia que o Brasil tem um bom ataque, mas ainda falta um camisa 10, e fica devendo no meio-campo. “Neymar pode ser esse 10, mas tem que se recuperar. Torço para que isso aconteça, pois deve ser a última Copa dele. Que jogue 30 minutos, mas que jogue em alto nível”.
Para Wando, a França é a favorita. “Tem um time muito forte e competitivo. Mas, na tradição temos aí o Brasil e a Argentina”, diz ele, na torcida.
Agradeço a Deus
Encerrando a entrevista, Wando revela:
“Viemos de família humilde. Somos sete irmãos, quatro homens e três mulheres. Meu irmão, Ronaldo, também jogou no Benfica, comigo. Hoje está aposentado. Todos os dias eu agradeço a Deus por ter me permitido jogar futebol, onde continuo atuando, mas em outro segmento. Tudo muito bom”!

Memórias da Cultura e do Esporte de Brasília

