{"id":2939,"date":"2024-12-01T21:32:54","date_gmt":"2024-12-02T00:32:54","guid":{"rendered":"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/?p=2939"},"modified":"2024-12-01T21:32:54","modified_gmt":"2024-12-02T00:32:54","slug":"nilton-santos-um-botafoguense-sem-igual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/index.php\/2024\/12\/01\/nilton-santos-um-botafoguense-sem-igual\/","title":{"rendered":"Nilton Santos, um botafoguense sem igual"},"content":{"rendered":"<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Por Jos\u00e9 Cruz <\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A conquista do Botafogo foi bem ao seu estilo, sofrida. Agiu como o \u201cmocinho\u201d do filme, que apanha muito, sobrevive, se liberta do cativeiro e prende o bandido. O Botafogo foi isso. Com dez em campo, apanhou muito do ataque de um Galo manco. Mas, em tr\u00eas ataques fulminantes, faturou. De fato, \u201ch\u00e1 certas coisas que s\u00f3 acontecem com o Botafogo\u201d.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Com o Botafogo campe\u00e3o da Am\u00e9rica, lembrei de Nilton Santos, o discreto craque bicampe\u00e3o mundial, que jogou apenas em dois times: o Botafogo e a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira. Orgulhava-se de dizer isso. Quem mais?<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Nilton morou em Bras\u00edlia por um bom tempo. Ele mantinha uma coluna semanal no Correio Braziliense, onde eu trabalhava, e ali nos conhecemos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2940\" aria-describedby=\"caption-attachment-2940\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/nilton1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2940\" src=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/nilton1-300x195.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"195\" srcset=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/nilton1-300x195.jpg 300w, https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/nilton1.jpg 570w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2940\" class=\"wp-caption-text\">Nilton Santos, com quadro por ele desenhado, entalhado em madeira e pintado. Artista com os p\u00e9s e com as m\u00e3os<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Depois que completou 80 anos, Nilton (1925-2013) voltou para o Rio de Janeiro. Estava contrariado com a mudan\u00e7a, mas Dona C\u00e9lia, sua mulher, queria ficar perto da fam\u00edlia. Nilton adorava o Rio quando podia ir \u00e0 praia. J\u00e1 oitent\u00e3o, queria a tranquilidade de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Reportagem<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Certa vez, o ent\u00e3o secret\u00e1rio de Reda\u00e7\u00e3o, Carlos Marcelo, me encomendou uma mat\u00e9ria sobre a rotina de Nilton Santos, j\u00e1 morando no Rio de Janeiro. Fui l\u00e1 e acertamos que eu o acompanharia na sua ida at\u00e9 o Maracan\u00e3, onde ele recebia excurs\u00f5es de turistas estrangeiros e ganhava uns trocados para passear com o grupo pelo monumental est\u00e1dio, com direito a fotos com ele, no final.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Na sa\u00edda de seu apartamento, no Flamengo, ele pegou um livro na prateleira, \u201cO Velho e o Mar\u201d, cl\u00e1ssico de Ernest Hemingway. Fiquei surpreso, afinal n\u00e3o sabia que ele gostava de literatura. \u201cGosto n\u00e3o, Cruz. \u00c9 que no trem eu finjo que estou lendo e ningu\u00e9m me enche o saco pedindo aut\u00f3grafo\u201d&#8230;. Mesmo assim, Nilton n\u00e3o era poupado. No trajeto, parou oito vezes a pedido dos f\u00e3s.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Quando descemos na esta\u00e7\u00e3o final, o Maracan\u00e3 estava coisa de 500 metros \u00e0 frente, majestoso. Duvido que algu\u00e9m chegue \u00e0quele monumento do futebol pela primeira vez e n\u00e3o se arrepie.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00a0Havia uma alameda que levava \u00e0 entrada onde ficava a sala de Nilton, Port\u00e3o 8, se n\u00e3o me engano. Ali estava uma mesa e uma cadeira, onde sentava um bicampe\u00e3o mundial, um craque como poucos esperando, no anonimato, por curiosos e barulhentos turistas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Nilton caminhava \u00e0 frente. A fot\u00f3grafa que nos acompanhava se deslocava de um lado pra outro, corria para esper\u00e1-lo mais \u00e0 frente para um flagra sem pose, um instant\u00e2neo. E fez um belo trabalho de imagens. Eu ia atr\u00e1s, anota\u00e7\u00f5es e anota\u00e7\u00f5es no bloquinho, enquanto Nilton revelava, em voz alta, o canto dos p\u00e1ssaros em alvoro\u00e7o nas \u00e1rvores do caminho.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Duas paix\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Poucos sabem, mas Nilton tinha duas especialidades al\u00e9m do futebol: entendia muito sobre aves e era um \u00f3timo escultor e pintor, em peda\u00e7os de madeira de cedro, que ele buscava na sede do Ibama, em Bras\u00edlia. Outra hora escrevo sobre como cheguei a essa descoberta e reportagem.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Nilton era um especialista em passarinhos desde os tempos em que ca\u00e7ava com o \u201ccompadre\u201d Man\u00e9, l\u00e1 para as bandas de Pau Grande ou mesmo na Ilha do Governador, onde morava.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><a href=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/nilton2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-2941 size-medium\" src=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/nilton2-195x300.jpg\" alt=\"\" width=\"195\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/nilton2-195x300.jpg 195w, https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/nilton2.jpg 531w\" sizes=\"auto, (max-width: 195px) 100vw, 195px\" \/><\/a>Numa pequena ch\u00e1cara que tinha perto de Bras\u00edlia, ele mandou construir um enorme viveiro, que visitava seguidamente. Com um punhado de arroz nas m\u00e3os, na cabe\u00e7a e nos ombros largos do homem forte que era ele entrava no viveiro e, com os bra\u00e7os abertos, na forma de cruz, deixava que a passarada disputasse cada gr\u00e3o distribu\u00eddo por seu corpo. Delirava \u2013 esse \u00e9 o termo \u2013 com aquele contato. E disse-me, depois, que aquela conviv\u00eancia com a natureza viva lhe trazia lembran\u00e7as do Man\u00e9 (1933-1983), companheiro do qual sentia falta enorme e n\u00e3o se convencia que ele tivesse morrido. Depois, se afastava, cabe\u00e7a baixa, e chorava baixinho&#8230;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">As lembran\u00e7as desses tempos de Nilton me vieram \u00e0 cabe\u00e7a a cada gol do Glorioso, no cl\u00e1ssico em que se sagrou campe\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Naquela caminhada pela alameda do Maracan\u00e3, j\u00e1 pr\u00f3ximo da entrada, Nilton deu uma parada, esperou que eu chegasse perto e perguntou:<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u201c\u00d4 Cruz, voc\u00ea sabe porque pardal nunca quis aprender a cantar\u201d?<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Claro que eu n\u00e3o sabia.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A resposta veio logo com um sorriso inesquec\u00edvel:<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u201cPardal n\u00e3o aprende a cantar pra n\u00e3o ficar preso em gaiola\u201d.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Essa frase \u00e9 a s\u00edntese do perfil e da personalidade de Nilton Santos. Ele era um homem livre. N\u00e3o obedeceu nem o t\u00e9cnico Vicente Feola que o mandou passar a bola e voltar \u00e0 lateral, no jogo de abertura do Mundial de 1958, quando fez o primeiro gol contra a \u00c1ustria (3&#215;0 Brasil). \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u201cN\u00e3o tinha ningu\u00e9m me marcando, o campo estava livre, avancei e chutei\u201d, contou aos rep\u00f3rteres, \u00e0 \u00e9poca. Depois, em p\u00e9, Feola aplaudia e repetia&#8230; \u201cboa Nilton, boa Nilton\u201d&#8230;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Nilton n\u00e3o se prendia nem aos hoje t\u00e3o valorizados contratos. Nem lia o que ali estava escrito, como disse certa vez. O importante era entrar em campo e jogar. At\u00e9 porque, mesmo sem TV e patrocinadores valiosos, os sal\u00e1rios n\u00e3o atrasavam. \u00a0\u201cEu fazia o que gostava e ainda me pagavam\u201d.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Inesquec\u00edvel Nilton Santos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jos\u00e9 Cruz A conquista do Botafogo foi bem ao seu estilo, sofrida. Agiu como o \u201cmocinho\u201d do filme, que apanha muito, sobrevive, se liberta do cativeiro e prende o bandido. O Botafogo foi isso. Com dez em campo, apanhou muito do ataque de um Galo manco. Mas, em tr\u00eas ataques fulminantes, faturou. 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