{"id":2707,"date":"2024-09-17T10:30:05","date_gmt":"2024-09-17T13:30:05","guid":{"rendered":"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/?p=2707"},"modified":"2024-09-17T19:04:09","modified_gmt":"2024-09-17T22:04:09","slug":"um-craque-apaixonado-e-referencia-na-historia-do-futebol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/index.php\/2024\/09\/17\/um-craque-apaixonado-e-referencia-na-historia-do-futebol\/","title":{"rendered":"Um craque apaixonado e\u00a0refer\u00eancia na hist\u00f3ria do futsal"},"content":{"rendered":"<p>Por\u00a0H\u00e9lio Tremendani e Jos\u00e9 Cruz<\/p>\n<p><strong> <a href=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/gua1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-2708 size-medium\" src=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/gua1-225x300.jpg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/gua1-225x300.jpg 225w, https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/gua1.jpg 592w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><\/a><\/strong><strong><em>A trajet\u00f3ria de Guairac\u00e1 Carv\u00e3o Nunes (foto), um dos maiores jogadores de futebol e futebol de sal\u00e3o nestes 64 anos de Bras\u00edlia, n\u00e3o \u00e9 apenas de fatos ligados ao esporte. <\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>A origem dele est\u00e1 intimamente vinculada a um personagem famoso na hist\u00f3ria do Brasil, o seu pai, Janary Gentil Nunes, que foi deputado federal, o primeiro governador do ent\u00e3o Territ\u00f3rio do Amap\u00e1, presidente da Petrobras e embaixador do Brasil na Turquia. <\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Nesta entrevista, Guairac\u00e1 mergulha na sua hist\u00f3ria de vida, nas andan\u00e7as e mudan\u00e7as com a fam\u00edlia pelo mundo, quando, mesmo convivendo entre pol\u00edticos, manteve a sua fidelidade ao futebol, consagrando-se como um dos maiores craques que j\u00e1 desfilaram pelos campos e quadras do Distrito Federal. Com mem\u00f3ria valiosa, ele fala, tamb\u00e9m, sobre a triste fatalidade de ter contra\u00eddo meningite, o que lhe provocou a perda da vis\u00e3o e da audi\u00e7\u00e3o, sem, contudo, lhe tirar a esperan\u00e7a e o bom humor. <\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>Ponto de partida<\/strong><\/p>\n<p>Guairac\u00e1 nasceu em Macap\u00e1, capital do Amap\u00e1, de frente para o Rio Amazonas. \u201cNasci em 1947, tenho 77 anos. O parto foi feito por meu pai, Janary Gentil Nunes, que era militar e, por influ\u00eancia de Get\u00falio Vargas, tornou-se pol\u00edtico\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/gua2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-2709\" src=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/gua2-300x208.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"208\" srcset=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/gua2-300x208.jpg 300w, https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/gua2-110x75.jpg 110w, https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/gua2.jpg 685w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Guairac\u00e1 foi batizado com nome ind\u00edgena que se originou dos guar\u00e1s (foto), um p\u00e1ssaro vermelho. \u201c\u00c9 o significado mais puro do p\u00e1ssaro sagrado. Os guar\u00e1s s\u00f3 andam em bandos. E, voando, eles s\u00e3o uma coisa maravilhosa\u201d, diz Guairac\u00e1.<\/p>\n<p>Guairac\u00e1 era sobrinho de Coaracy Nunes, o Coarynha, que presidiu a da Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira de Desportos Aqu\u00e1ticos por longos anos.<\/p>\n<p><strong><em>\u201cCoaracy fazia tudo com muito amor e se faz com amor d\u00e1 certo\u201d.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>\u201cLouco, apaixonado\u201d<\/strong><\/p>\n<p>\u201cA minha vida \u00e9 toda ligada ao futebol. Desde crian\u00e7a, desde pequenino, sou louco, apaixonado, tarado amante do futebol. Vou te contar mais uma paix\u00e3o: fui campe\u00e3o brasileiro de jogo de bot\u00e3o, o futebol de mesa. Veja s\u00f3, um cara aos quarenta e tantos anos e j\u00e1 casado jogando bot\u00e3o&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cQuando fui campe\u00e3o, ganhei na final por 2&#215;1 do campe\u00e3o brasileiro. Foi a maior zebra do campeonato, que tinha representantes do Rio de Janeiro, de S\u00e3o Paulo e da Bahia. Na final, foram dois times do Rio, o Copa Tijuca, do meu advers\u00e1rio, e o meu Grajauense\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEu tinha uma maletinha onde carregava os meus jogadores (os bot\u00f5es), que valiam muito dinheiro. Tinha o Didi, que era o n\u00famero 8, tinha o Quarentinha, o Zagallo. Era um tima\u00e7o. O Didi era o artilheiro. Na semifinal desse Brasileiro que ganhei, estava 6&#215;1 para mim. Meu advers\u00e1rio perdeu o controle e jogou o Didi no ch\u00e3o. Foi com tanta for\u00e7a que o bot\u00e3o quebrou. Imagina a minha decep\u00e7\u00e3o, fiquei enfurecido\u201d.<\/p>\n<p><strong>Futlama<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_2715\" aria-describedby=\"caption-attachment-2715\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/gua8.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2715\" src=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/gua8-300x199.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"199\" srcset=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/gua8-300x199.jpg 300w, https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/gua8-310x205.jpg 310w, https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/gua8.jpg 339w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2715\" class=\"wp-caption-text\">Ainda hoje, o futlama \u00e9 atra\u00e7\u00e3o tur\u00edstica no Amazonas (foto)<\/figcaption><\/figure>\n<p>No futebol, Guairac\u00e1 fez de tudo, jogou bola na rua, na pra\u00e7a, futebol de sal\u00e3o, na areia e at\u00e9 na lama. Com lembran\u00e7a emocionante sobre o passado, ele \u00e9 did\u00e1tico na explica\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cQuando a mar\u00e9 baixa h\u00e1 um refluxo do rio, esvazia quase um quil\u00f4metro e fica aquela lama. Era ali que eu, ainda crian\u00e7a, jogava e me divertia\u201d.<\/p>\n<p><strong>O her\u00f3i<\/strong><\/p>\n<p>Os filhos de Guairac\u00e1 se chamam Pedro, Ana Morena, Alana, Ana Paula, Gian, Guilherme, Maria Ant\u00f4nia, que \u00e9 a mais nova, e Juliana Maria. \u201cRepara que todos tem o \u201can\u201d. Minha l\u00f3gica parte do nome Janary, meu pai, o her\u00f3i da minha vida. Eu era apaixonado pelo som \u201can\u201d, um som sagrado que sempre me soou bem, um som de muito amor\u201d.<\/p>\n<p><strong>Elite e democracia<\/strong><\/p>\n<p>\u201cNasci na casa do governador, meu pai. No dia do meu nascimento, Juscelino Kubistchek, estava l\u00e1 em Macap\u00e1, com deputados federais, visitando a Amaz\u00f4nia. Chegou a hora de eu nascer. Papai pediu licen\u00e7a para sair, porque iria fazer o parto da minha m\u00e3e. Era o terceiro parto que ele realizava. JK perguntou se ele era m\u00e9dico&#8230;. N\u00e3o era. Ele era militar. Ent\u00e3o, esse cara \u00e9 maluco, concluiu o presidente sem saber das habilidades do amigo Janary\u201d.<\/p>\n<p><strong><em>Eu era para ter sido filho da elite. Mas a import\u00e2ncia do futebol na minha vida foi fundamental. Eu fui criado jogando bola com gente pobre, gente humilde, com moleques, meus amigos de rua, e isso mudou a minha vida. O futebol \u00e9 a parte fundamental da minha vida. Atrav\u00e9s dele, me tornei aut\u00eantico povo, amante da cidadania e da democracia.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>Ordem presidencial<\/strong><\/p>\n<p>De 1937 a 1945 vigorou a ditadura de Get\u00falio Vargas, conhecido por Estado Novo. O governo era centralizador e autorit\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u201cMeu pai, capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito, democrata, n\u00e3o gostava de ditaduras. Ele tinha um curr\u00edculo fant\u00e1stico, era intelectual das For\u00e7as armadas e at\u00e9 dirigiu a revista da Escola Militar. Falavam at\u00e9 que ele era comunista, socialista, essas coisas, porque era contra ditaduras\u201d.<\/p>\n<p>Mas, apesar dessas suspeitas, em 1943, Janary \u00a0foi surpreendido com um convite para ser o governador nomeado do ent\u00e3o Territ\u00f3rio do Amap\u00e1, que havia sido criado por Get\u00falio Vargas. A resposta ao ent\u00e3o ministro da Guerra foi uma negativa.<\/p>\n<p>\u201cEu agrade\u00e7o a honra desse convite, mas eu n\u00e3o aceito. Quero continuar na minha carreira militar, decidi servir \u00e0 minha p\u00e1tria. Muito obrigado, mas n\u00e3o quero\u201d.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a determina\u00e7\u00e3o presidencial continuou e Janary recebeu a seguinte ordem de Get\u00falio, mais ou menos nesses termos:<\/p>\n<p><strong><em>\u201cJanary, deixa eu te explicar. N\u00e3o se trata de um convite, \u00e9 uma convoca\u00e7\u00e3o. Eu sou o chefe das For\u00e7as Armadas, sou o presidente da na\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea est\u00e1 sendo convocado para ser o governador do Amap\u00e1, n\u00e3o aceito a sua recusa\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/gua3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2710\" src=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/gua3.jpg\" alt=\"\" width=\"438\" height=\"411\" srcset=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/gua3.jpg 438w, https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/gua3-300x282.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 438px) 100vw, 438px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Democracia, a prioridade<\/strong><\/p>\n<p>Diante dessa ordem, Janary assumiu o comando do Territ\u00f3rio do Amap\u00e1 e come\u00e7ou a implantar uma democracia, cujos m\u00e9todos e n\u00edveis de aprova\u00e7\u00e3o se espalharam pelo Brasil. O seu mandato durou 12 anos, de 1944 a 1956.<\/p>\n<p>O discurso do primeiro governador daquele ent\u00e3o territ\u00f3rio era nesses termos:<\/p>\n<p><strong><em>\u201cO brasileiro \u00e9 um escravo, \u00e9 um pau mandado. Vou transformar o povo em cidad\u00e3o\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Na verdade, eram diretrizes democr\u00e1ticas que confrontavam com a ditadura Vargas. Mas, os investimentos de Janary no governo tinham um trip\u00e9 b\u00e1sico: educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e emprego. \u201cMeu pai tinha 31 anos quando assumiu o governo. Ele era um cara culto. Desde menino aprendeu muito, foi caboclo na Amaz\u00f4nia, nascido e criado na floresta\u201d.<\/p>\n<p>Os feitos de Janary Nunes foram t\u00e3o expressivos, quem em 1\u00ba de junho de 2012, o senador amapaense, Randolfo Rodrigues, promoveu uma sess\u00e3o solene do Congresso Nacional em homenagem ao primeiro centen\u00e1rio de nascimento do primeiro governador do ent\u00e3o Territ\u00f3rio. Em seu discurso, Randolfo destacou os feitos de Janary, como a constru\u00e7\u00e3o de fazendas-modelo, centros hortigranjeiros, escolas e aeroporto.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Na Petrobras<\/strong><\/p>\n<p>Em 1956, Juscelino Kubitschek assumiu a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica e por sugest\u00e3o do amigo Coaracy Nunes nomeou Janary presidente da Petrobras. Nos tr\u00eas anos que l\u00e1 ficou, investiu na pesquisa, na produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e em recursos humanos.<\/p>\n<p>Guairac\u00e1 lembra daqueles tempos de garoto e faz o seguinte relato:<\/p>\n<p>\u201cFui morar no Rio quando estava com 9 anos. Joguei futebol de rua, de praia, jogava em times, tamb\u00e9m. Jogava pelada todo dia, mas tinha um time. Fui campe\u00e3o carioca infanto juvenil de futebol de Sal\u00e3o pelo Flamengo. Tamb\u00e9m joguei no Pracinha, que foi campe\u00e3o do Rio num campeonato na praia do Botafogo\u201d.<\/p>\n<p><strong>Humildade<\/strong><\/p>\n<p>\u201cHumildemente te digo, eu n\u00e3o tinha no\u00e7\u00e3o do quanto eu jogava, mas todo mundo falava nisso, que onde eu jogasse eu dava show. Quando estava com 13 anos, eu era famoso no futebol de areia, na praia. Mas a\u00ed, o Velho Janary foi tirado da Petrobras&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Janary saiu da presid\u00eancia da Petrobras porque revelou-se um \u00f3timo gestor e, assim, um candidato em potencial \u00e0 presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Segundo o filho Guairac\u00e1, JK teria ficado \u201ccom medo dessa candidatura\u201d. Entre os nacionalistas e desenvolvimentistas ele era o candidato ideal \u00e0 presid\u00eancia. E foi por isso que JK tirou Janary da Petrobras e o nomeou embaixador na Turquia.<\/p>\n<p><strong>Na Turquia<\/strong><\/p>\n<p>A mudan\u00e7a de pa\u00eds n\u00e3o tirou de Guairac\u00e1 o gosto pelo futebol. Na Turquia, ele passou dois anos com a fam\u00edlia e logo passou a jogar \u00a0peladas nas ruas de Ancara. Ele esclarece:<\/p>\n<p>\u201cA Turquia situa-se nos dois lados do estreito de B\u00f3sforo, que separa a Europa da \u00c1sia. Assim, a Turquia fica na \u00c1sia e Istambul, a cidade mais importante daquele pa\u00eds, fica na Europa\u201d.<\/p>\n<p>O primeiro campeonato \u201cde verdade\u201d que ele conquistou foi na escola. Eu dei um show. Quando terminou o jogo, meus colegas me levantaram e me carregaram pela rua, at\u00e9 a minha casa. Meu pai ficou assustado quando viu a molecada toda me carregando, mas era tudo alegria, exaltando a festa de termos sido camp\u00f5es escolares\u201d.<\/p>\n<p><strong>De volta ao Rio<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Nessa segunda fase no Rio de Janeiro, Guairac\u00e1 manteve a rotina de ganhar t\u00edtulos.\u00a0 \u201cO ser humano t\u00e1 sempre se construindo e eu constru\u00ed uma carreira no futebol. Os americanos chamam isso de `skill\u00b4, isto \u00e9, habilidade, talento, e era que eu tinha no futebol que jogava com muita t\u00e9cnica\u201d.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 o seu pai, Janary, candidatou-se a deputado federal, e ganhou em duas legislaturas, de 1963 a 1967 e de 1968 a 1971. A essa altura, Bras\u00edlia j\u00e1 era a capital da Rep\u00fablica e aqui passou a ser a morada de Guairac\u00e1, onde se consagrou no futebol, no futebol de sal\u00e3o e \u00e9 lembrado at\u00e9 hoje por seus contempor\u00e2neos pela arte com que praticava\u00a0 esses esportes.<\/p>\n<p><strong>Revela\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_2711\" aria-describedby=\"caption-attachment-2711\" style=\"width: 265px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/gua4.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2711 size-medium\" src=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/gua4-265x300.jpg\" alt=\"\" width=\"265\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/gua4-265x300.jpg 265w, https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/gua4.jpg 505w\" sizes=\"auto, (max-width: 265px) 100vw, 265px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2711\" class=\"wp-caption-text\">Arnaldo e Guairac\u00e1, amizade que se perpetua<\/figcaption><\/figure>\n<p>Quando chegou em Bras\u00edlia, Guairac\u00e1 tinha 16 anos. Foi estudar no col\u00e9gio Elefante Branco, onde se encontrou com a turma do futebol e fez carreira vitoriosa.<\/p>\n<p>Embora Guairac\u00e1 seja, ainda hoje, citado ao lado de Axel como a maior dupla de futebol de sal\u00e3o que Bras\u00edlia j\u00e1 teve, ele faz uma revela\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cAxel jogava muito, mas, para mim, o maior craque que joguei e vi jogar foi o Arnaldo\u201d. Ele se refere a Arnaldo Gomes, ex-diretor da Gr\u00e1fica do Senado Federal, cuja carreira \u00e9 sempre lembrada e elogiada por contempor\u00e2neos\u201d.<\/p>\n<p><strong>Coletivo<\/strong><\/p>\n<p>\u201cA hist\u00f3ria da minha vida est\u00e1 centrada no coletivo, tendo o futebol como exemplo. Eu n\u00e3o sou nada sozinho, se eu jogo futebol \u00e9 coletivo, n\u00e3o sou nada sozinho. Eu dependo do meu time, do entrosamento do conjunto de jogadores. \u00c9 diferente de ser um craque individualmente\u201d.<\/p>\n<p>Guairac\u00e1 e Arnaldo Gomes se conheceram quando estudavam no Col\u00e9gio Elefante Branco, uma das refer\u00eancias do bom ensino, logo no in\u00edcio de Bras\u00edlia. Depois, voltaram a se encontrar em 1965, quando estudaram na Universidade de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>\u201cEu morava na quadra 105 Sul. Em todas as quadras havia um campo de futebol. Onde tinha pelada eu ia. No Elefante Branco, eu jogava no time dos professores, que me elogiavam:<\/p>\n<p><strong><em>\u201cGuairac\u00e1 dribla muito bem, chuta muito forte&#8230;\u201d Mas isso n\u00e3o me deixava vaidoso, eu era humilde. Sabia que eu era craque, mas o neg\u00f3cio era o time, ter consci\u00eancia do jogo coletivo\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>Bons tempos<\/strong><\/p>\n<p>Guairac\u00e1 participou do futebol de campo de Bras\u00edlia na primeira d\u00e9cada da capital, inaugurada em 1960. Era um tempo em que as construtoras que aqui erguiam a cidade investiam no futebol de campo, principalmente, pois era a \u00fanica op\u00e7\u00e3o de lazer para os trabalhadores e para o p\u00fablico que gostava de esporte.<\/p>\n<p>\u201cJoguei em Bras\u00edlia nos anos 1960, o futebol aqui era muito forte. Mas, o profissionalismo murchou depois que a Rabello, o Defel\u00ea e outras construtoras deixaram de investir. Acabou o dinheiro, n\u00e3o contratavam mais jogadores, de fora, principalmene. O melhor tempo do futebol de Bras\u00edlia foi, de fato, nos anos 1960, diz Guairac\u00e1.<\/p>\n<p>Ele ainda era juvenil, aspirante a profissional, e j\u00e1 ouvia falar maravilhas de Arnaldo Gomes e no Ot\u00e1vio que, diziam os mais velhos, eram \u00f3timos jogadores&#8230; A amizade que Guairac\u00e1 e Arnaldo fizeram em quadra dura at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>No futebol de campo, Guairac\u00e1 come\u00e7ou pelo time juvenil do Defel\u00ea, que se sagrou tricampe\u00e3o da cidade. Por\u00e9m, ele participou do time que ganhou os dois \u00faltimos t\u00edtulos.\u00a0 Nessa \u00e9poca, come\u00e7ou a observar o desempenho de Arnaldo e sonhava: \u201cUm dia, vou ser como ele\u201d.<\/p>\n<p><strong>Na Caixa<\/strong><\/p>\n<p>Com Guairac\u00e1 contratado, o time da Caixa come\u00e7ou a ganhar, e o craque ganhou mais fama, pelos dribles, principalmente. O pen\u00faltimo jogo de um campeonato que ele disputou foi contra a Civilsan, uma empresa construtora que foi derrotada por 4&#215;1. O jogo foi onde hoje est\u00e1 a faculdade Unieuro, na L4 Sul.<\/p>\n<p><strong>Gol na ra\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>\u201cEra um campo espetacular, de barro, mas se jogava de chuteira\u201d, recorda sobre as condi\u00e7\u00f5es do futebol daquele tempo.<\/p>\n<p>\u201cNaquela \u00e9poca n\u00e3o tinha alambrado. Era um monte de gente cercando o campo. Axel estava naquele jogo. Eu estava levando muita porrada do lateral esquerdo do Civilsan. A\u00ed, me agachei e peguei uma boa quantidade de areia que guardei na m\u00e3o, fechada. Para mim futebol era arte, n\u00e3o briga entre advers\u00e1rios.\u00a0 Axel me fez um lan\u00e7amento e disparei pela ponta direita indo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 entrada da \u00e1rea pela diagonal. O cara veio feito um louco, ia me arrebentar. Foi a\u00ed que usei a areia que guardava na m\u00e3o. Quando ele se aproximou, soltei a m\u00e3o na cara dele, acertou o olho em cheio. Ele foi surpreendido e parou de me perseguir. Entrei na \u00e1rea, driblei o goleiro e fiz o terceiro gol\u201d.<\/p>\n<p>No final, inconformados com a derrota por 4&#215;1, advers\u00e1rios partiram para a briga. A torcida engrossou e entrou em campo, o principal alvo era Guairac\u00e1. Foi uma coisa muito feia!<\/p>\n<p>\u201cEu corria muito, mas n\u00e3o podia cair. Fui em dire\u00e7\u00e3o ao Bugl\u00ea, irm\u00e3o daquele Bugl\u00ea que fez o primeiro gol no est\u00e1dio Mineir\u00e3o. Era um cara forte que escorou os caras e me salvou. No final, fomos uns oito para o hospital. Eu cheguei no Hospital Distrital \u2013 hoje Hospital de Base \u2013 carregado numa maca\u201d<\/p>\n<p><strong>Chuteiras<\/strong><\/p>\n<p>\u201cJogava-se com chuteiras Gaeta, pretas, e se ajustava a trava, alta para jogar em gramado, trava baix\u00edssima se fosse de areia ou de barro\u201d, recorda Guairac\u00e1.<\/p>\n<p>Depois da campanha do tricampeonato pelo Defel\u00ea, Guairac\u00e1 passou a ser profissional e foi jogar no Clube de Regatas do Guar\u00e1. \u201cO Rui Rosa do Nascimento, que era ligado ao Departamento de For\u00e7a e Luz, o Defel\u00ea, fez uma verdadeira sele\u00e7\u00e3o, desde o goleiro. Teve jogadores que vieram do Pederneiras, do Sobradinho e do pr\u00f3prio Defel\u00ea. Tinha o Zez\u00e9, do Rabelo, e o Manoelzinho, pontas de lan\u00e7a. Tinha, tamb\u00e9m, o Sabarazinho, o Beto Preti, um beque espetacular.<\/p>\n<p><strong>O drible<\/strong><\/p>\n<p>Quando era crian\u00e7a, Guairac\u00e1 n\u00e3o tinha o poder de driblar. Isso veio com muito treino. Mas era bom para fazer gols. Na primeira vez que jogou futebol de campo, ele foi escalado na lateral direita. Mesmo nessa posi\u00e7\u00e3o, participou de cinco gols marcados pelo seu time. Guairac\u00e1 explica:<\/p>\n<p>\u201cO drible voc\u00ea constr\u00f3i. Comecei a treinar dribles como o Garrincha fazia, partindo para cima do zagueiro. Cada novo drible que eu dava tinha sido criado, eu tinha treinado antes. Garrincha, J\u00falio C\u00e9sar, do Flamengo, M\u00e1rio S\u00e9rgio&#8230;, que morreu no acidente da Chapecoense, em 2016&#8230; eu adorava vendo eles jogarem. Mas, n\u00e3o gostava de ponta que tinha velocidade e n\u00e3o sabia cruzar nem finalizar. Eu dava um show no lateral esquerdo do Rabelo, eu era inquieto, corria o campo todo\u201d.<\/p>\n<p><strong>Com Arnaldo<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u201c<\/strong>Ter jogado com o Velho Arnaldo \u2013 express\u00e3o provocativa de Guairac\u00e1 para com o amigo \u2013 me traz boas lembran\u00e7as do veterano craque. Certa vez, o Rabello ganhava do nosso time por 1&#215;0. Atacamos e empatamos. O Rabello reagiu e fez o segundo gol, 2&#215;1 para ele. A\u00ed, eu peguei uma bola e sa\u00ed driblando meio mundo. Entrei na \u00e1rea, me derrubaram. P\u00eanalti! Gol nosso! Quem bateu o p\u00eanalti? O \u201cVelho\u201d Arnaldo. No ano em que fui campe\u00e3o pelo Defel\u00ea, joguei alguns jogos pela Vila Nova de Goi\u00e1s. Mas, sofri uma puni\u00e7\u00e3o e a Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira de Desportos (CBD, hoje CBF) que me suspendeu por um ano, devido a problemas burocr\u00e1ticos de meu registro. Por\u00e9m, o advogado Jadel Noronha conseguiu derrubar a minha puni\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><strong>Futebol de sal\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>\u201cTenho que reconhecer, fui um craca\u00e7o no futebol de campo. Mas me avaliavam mais no futebol de sal\u00e3o, porque os times em que joguei sempre tinha gin\u00e1sio lotado. Fui dez vezes campe\u00e3o de Bras\u00edlia e artilheiro em seis desses campeonatos. Era muito bom, eu jogava tudo: sal\u00e3o, campo, pelada, o Campeonato da Asa Norte. Num \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 domingo \u00e0 tarde, joguei uma partida no campo do Defel\u00ea (Vila Planalto). Quando o jogo terminou, eu peguei o meu carro e sa\u00ed voando e ainda consegui jogar o segundo tempo num time que disputava o Campeonato da Asa Norte\u201d&#8230;<\/p>\n<p><strong>\u201cJogando bola, nunca me senti cansado\u201d<\/strong><\/p>\n<p>EM 1965, quando tinha 18 anos, Guairac\u00e1 estudava na Faculdade de Ci\u00eancias Jur\u00eddicas e Sociais da UnB, fazia o Curso de Direito. E jogou pela Faunb (Federa\u00e7\u00e3o Acad\u00eamica da Universidade de Bras\u00edlia). Depois, a Faunb foi proibida de disputar competi\u00e7\u00f5es oficiais porque era uma \u201cFedera\u00e7\u00e3o\u201d. Foi quando Arnaldo Gomes articulou com a dire\u00e7\u00e3o do Minas Bras\u00edlia T\u00eanis Clube e levou todo o time para l\u00e1. E foi esse time que conquistou o pentacampeonato da cidade. Guairac\u00e1 ainda jogou pelo Iate Clube, ganhando mais tr\u00eas t\u00edtulos citadinos.<\/p>\n<p><strong>O melhor time<\/strong><\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o do entrevistado, o melhor time de futebol de sal\u00e3o de Bras\u00edlia de todos os tempos foi o que teve Waltinho no gol; Axel, Arnaldo, Ot\u00e1vio e Guarac\u00e1, isso no final de 1970 e 1971.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2712\" aria-describedby=\"caption-attachment-2712\" style=\"width: 567px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/gua5.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2712\" src=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/gua5.jpg\" alt=\"\" width=\"567\" height=\"425\" srcset=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/gua5.jpg 567w, https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/gua5-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2712\" class=\"wp-caption-text\">Time da Faunb, 1965\/66. Foto publicada na imprensa brasiliense<br \/>EM P\u00c9: &#8230;.., Axel, Arnaldo, Paulinho e Cleber Soares (t\u00e9cnico);<br \/>AGACHADOS: Massagista, Padre Neco (fisioterapeuta), Sugai e Guarac\u00e1<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u201cWaltinho (que n\u00e3o aparece na foto) foi um grande goleiro. Tinha o melhor lan\u00e7amento entre todos. Era espetacular, a bola chegava em mim, mais dois toques e sa\u00eda o gol. O outro goleiro era Alcides Lima, o \u201cM\u00e3o de Gato\u201d, que depois foi eleito deputado federal. Em 1972, Arnaldo saiu desse time porque assumiu a dire\u00e7\u00e3o da Gr\u00e1fica do Senado, que exigia trabalho dele em tempo integral\u201d.<\/p>\n<p><strong>Axel e Arnaldo<\/strong><\/p>\n<p>Todo mundo fala maravilhas do Axel, uma lenda, um zagueiro fant\u00e1stico. Axel armava como ningu\u00e9m e fazia passes preciosos. Mas, quem segurava o sistema defensivo \u00e9 esse velho aqui do meu lado, o \u00faltimo homem, o cara que defendia e ainda fazia gol, que dava seguran\u00e7a no sistema defensivo, Arnaldo Gomes.<\/p>\n<p><strong>Substitui\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>\u201cPara o lugar do Arnaldo v\u00e1rias tentativas foram feitas. Era imposs\u00edvel substituir, ele era craque. Mas tivemos grandes jogadores, como o Tito, que foi da Sele\u00e7\u00e3o Paulista, veio com o irm\u00e3o Cid\u00e3o. Eles foram empregados no Defer. Tito pegava a bola atr\u00e1s e enfiava pra mim, l\u00e1 na frente. Eu era piv\u00f4, o \u00faltimo homem; eu pisava na bola e n\u00e3o deixava ningu\u00e9m pegar. Tito chegava livre, chutava e fazia o gol. Depois, entrou o Walmir \u201cBelas Coxas\u201d, foi quem fez o gol na vit\u00f3ria de 1&#215;0 sobre o Palmeiras, aqui em Bras\u00edlia\u201d.<\/p>\n<p><strong>Depoimento<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/gua6.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-2713 size-medium\" src=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/gua6-216x300.jpg\" alt=\"\" width=\"216\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/gua6-216x300.jpg 216w, https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/gua6.jpg 544w\" sizes=\"auto, (max-width: 216px) 100vw, 216px\" \/><\/a>H\u00e9lio Tremendani (<em>na foto, \u00e0 esquerda, com Guairac\u00e1<\/em>), que acompanhou toda essa fase hist\u00f3rica do esporte, enquanto Bras\u00edlia crescia, presta depoimento sobre Guairac\u00e1.<\/p>\n<p>\u201cQuando Guairac\u00e1 encerrou a sua carreira de atleta federado, passou a disputar o Torneio da Aruc, vestindo a camisa do Carioca, time de craques que marcou \u00e9poca em Bras\u00edlia. Num jogo que eu estava apitando, a arquibancada da Aruc estava lotada. Quando o Carioca jogava era sempre assim. Num certo momento, ele recebeu a bola no fundo da quadra. Dois ou tr\u00eas advers\u00e1rios correram para cercar Guairac\u00e1, que d\u00e1 um toque sutil com a ponta do t\u00eanis e a bola entra no \u00e2ngulo. Ningu\u00e9m acreditava, um gol incr\u00edvel. Eu n\u00e3o estava acreditando que a bola tinha entrado. Mas, como ningu\u00e9m do time advers\u00e1rio reclamou \u2013 alguns at\u00e9 aplaudiram \u2013 eu validei aquele gola\u00e7o.<\/p>\n<p>Em outra ocasi\u00e3o, o Axel, da \u00e1rea dele, enfia um passe certeiro para o Guarac\u00e1, j\u00e1 pr\u00f3ximo da \u00e1rea advers\u00e1ria. Ele pegou a bola, fugiu de uma falta e ainda deu um toque sutil sobre o goleiro, marcando mais um gola\u00e7o. O gin\u00e1sio veio abaixo\u201d.<\/p>\n<p><strong>Segredo<\/strong><\/p>\n<p>\u201cFoi o gol do 2&#215;1 contra a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira. Axel lan\u00e7ou, eu era o \u00faltimo homem. O goleiro da Sele\u00e7\u00e3o era o Pl\u00e1cido. Era matar, pisar e chutar. Mas, na hora que fui matar, matei errado, a bola subiu e eu vejo o Pl\u00e1cido vir como um tarado pra me arrastar. Resolvo dar um chut\u00e3o, mas o chute pega mal no meu p\u00e9 e a bola sobe, pega um efeito. Eu consigo pular fora da marca\u00e7\u00e3o do Pl\u00e1cido e escapei de minha perna ter sido quebrada &#8230; A bola fez um c\u00edrculo e entrou. Foi um dos maiores gols que fiz, contra a Sele\u00e7\u00e3o, no Gin\u00e1sio Nilson Nelson. Ningu\u00e9m ficou sabendo que aquela pintura de gol saiu apesar de eu ter matado e chutado errado&#8230;\u201d<\/p>\n<p><strong><em>Momento muito triste<\/em><\/strong><\/p>\n<p>\u201cEm 2016 eu estava muito bem de sa\u00fade, tinha 69 anos e disputava o campeonato de veteranos do Minas T\u00eanis Clube. Naquele ano, Ila, minha esposa, contraiu um c\u00e2ncer. Eu estava indignado com aquela realidade, pois ela tinha 47 anos&#8230; De carro, eu a levava para tratamento no Hospital Universit\u00e1rio, na Asa Norte. Numa dessas sess\u00f5es, eu estava lendo um livro na sala de espera, quando tive um desmaio. Tentaram me reanimar, mas eu n\u00e3o reagia. Fui internado no Hospital de Taguatinga, onde saiu o diagn\u00f3stico: eu havia contra\u00eddo uma meningite que atingiu o nervo \u00f3ptico me provocando cegueira no olho esquerdo. Desse lado tamb\u00e9m perdi a audi\u00e7\u00e3o. Fiquei em coma por trinta e poucos dias&#8230; Passei um m\u00eas em tratamento no Hospital Sarah Kubitscheck. Nesse tempo, morre a minha esposa&#8230; era s\u00f3 tristeza. Fui ao Hospital de Olhos e, certo dia, uma m\u00e9dica me falou: `Guairac\u00e1, vou lhe dar uma not\u00edcia, essa esperan\u00e7a de recuperar a vis\u00e3o voc\u00ea pode descartar, voc\u00ea n\u00e3o conseguir\u00e1 enxergar de novo\u00b4. Minha rea\u00e7\u00e3o foi indignada:<\/p>\n<blockquote><p><strong><em>&#8211; A Senhora est\u00e1 enganada. Enquanto eu tiver vivo, nada em mim estar\u00e1 morto. Veja se consegue entender. Nada em mim est\u00e1 morto! Era primeiro de outubro de 2015. Ila morreu em janeiro do ano seguinte. Passam quase nove anos e se eu te contar que j\u00e1 consigo enxergar a tua sombra? &#8230; de alguma forma j\u00e1 recuperei um pouco a visibilidade do olho direito e o ouvido direito continua bom.<\/em><\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Livros<\/strong><\/p>\n<p>Com o aux\u00edlio da tecnologia para pessoas cegas, Guairac\u00e1 ouve a m\u00e9dia de oito livros por m\u00eas: romances, ensaios, filos\u00f3ficos, biografias. \u201cLi o livro do Casagrande, um espet\u00e1culo\u201d, afirma. Al\u00e9m disso, ele tamb\u00e9m escreve os seus livros. Para isso, liga para uma assistente, professora de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, e dita o conte\u00fado, cabendo a ela ordenar o texto final.<\/p>\n<p><strong><em>\u201cSe n\u00e3o fizer as coisas com amor&#8230; t\u00e1 perdido.\u00a0<\/em><\/strong><strong><em>E tem que acreditar no que est\u00e1 fazendo\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><strong>A entrevista<\/strong><\/p>\n<p><em>A entrevista de Guairac\u00e1 \u00e0 Mem\u00f3ria da Cultura e do Esporte em Bras\u00edlia foi realizada na casa de Arnaldo Gomes, personagem desta reportagem, amigo de Guairac\u00e1. A conversa durou quase tr\u00eas horas, com um intervalo para o caf\u00e9, gentilmente oferecido pelo anfitri\u00e3o. Nesse tempo, Guairac\u00e1 falou direto, como se fosse um grande depoimento, demonstrando mem\u00f3ria incr\u00edvel e sem esconder a saudade daqueles tempos, mas insistindo, sempre, que \u00e9 preciso amor no agir das pessoas\u201d.<\/em><\/p>\n<p><strong>Da esquerda para a direita:<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_2714\" aria-describedby=\"caption-attachment-2714\" style=\"width: 421px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/gua7.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2714 size-full\" src=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/gua7.jpg\" alt=\"\" width=\"421\" height=\"342\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2714\" class=\"wp-caption-text\">H\u00e9lio Tremendani, Guairac\u00e1, Pedro (filho de Guairac\u00e1) e Arnaldo Gomes, o anfitri\u00e3o para a entrevista e apoiador deste portal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por\u00a0H\u00e9lio Tremendani e Jos\u00e9 Cruz A trajet\u00f3ria de Guairac\u00e1 Carv\u00e3o Nunes (foto), um dos maiores jogadores de futebol e futebol de sal\u00e3o nestes 64 anos de Bras\u00edlia, n\u00e3o \u00e9 apenas de fatos ligados ao esporte. A origem dele est\u00e1 intimamente vinculada a um personagem famoso na hist\u00f3ria do Brasil, o seu pai, Janary Gentil Nunes, &hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2714,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13,6,4,16,14],"tags":[],"class_list":["post-2707","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","","category-colunistas","category-entrevistas","category-esporte","category-helio-tremendani","category-jose-cruz"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2707","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2707"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2707\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2718,"href":"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2707\/revisions\/2718"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2714"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2707"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2707"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2707"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}