{"id":2361,"date":"2024-03-17T18:45:18","date_gmt":"2024-03-17T21:45:18","guid":{"rendered":"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/?p=2361"},"modified":"2024-03-17T18:45:39","modified_gmt":"2024-03-17T21:45:39","slug":"geracao-dom-bosco-paulao-da-capoeira-a-luta-pacifica-venceu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/index.php\/2024\/03\/17\/geracao-dom-bosco-paulao-da-capoeira-a-luta-pacifica-venceu\/","title":{"rendered":"Gera\u00e7\u00e3o Dom Bosco:\u00a0PAUL\u00c3O DA CAPOEIRA, &#8220;a luta pac\u00edfica venceu&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Por\u00a0H\u00e9lio Tremendani e Jos\u00e9 Cruz<\/p>\n<p><strong><em>Ainda crian\u00e7a, Paul\u00e3o aprendeu o que significava \u201cVamos \u00e0 luta\u201d. No in\u00edcio, luta era briga, mesmo! Nos tempos de escola, um olhar atravessado j\u00e1 era motivo para sair no bra\u00e7o. <\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Hoje, Paul\u00e3o \u00e9 consagrado Mestre da Capoeira, professor, sambista, desportista e o terceiro entrevistado da \u201cGera\u00e7\u00e3o Dom Bosco de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_2362\" aria-describedby=\"caption-attachment-2362\" style=\"width: 567px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/paulao1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2362 size-full\" src=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/paulao1.jpg\" alt=\"\" width=\"567\" height=\"580\" srcset=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/paulao1.jpg 567w, https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/paulao1-293x300.jpg 293w\" sizes=\"auto, (max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2362\" class=\"wp-caption-text\">\u201cEu brigava todos os dias, na rua e na escola.\u00a0Quando n\u00e3o tinha uma briga n\u00e3o tava bom\u201d (Foto: Jos\u00e9 Cruz)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Com o tempo, o que era briga se tornou coisa s\u00e9ria, profiss\u00e3o, inclusive, com lutas em cima de um ringue, com juiz e muita gente na arquibancada gritando para ver uma boa pancadaria.<\/p>\n<p><strong>O come\u00e7o<\/strong><\/p>\n<p>Em Bras\u00edlia desde 1957, o paulista Jos\u00e9 Paulo dos Santos, o Paul\u00e3o, teve uma vida de lutas, no bra\u00e7o ou na disputa por um bom lugar na sociedade, enfrentando a tal de \u201cdiscrimina\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Chegou crian\u00e7a por aqui \u2013 n\u00e3o lembra com que idade nem a que tem atualmente&#8230;<\/p>\n<p>No in\u00edcio, foi morar com a fam\u00edlia num barraco na Fazenda Ave Branca, hoje a QR 18, em Taguatinga, com mais um irm\u00e3o e tr\u00eas irm\u00e3s, filhos de Maria de Jesus com Jos\u00e9 dos Santos, sergipanos. O pai foi trabalhar como mestre de obras na Pederneiras, uma das construtoras que ergueu a Esplanada dos Minist\u00e9rios.<\/p>\n<p><strong>Doa\u00e7\u00e3o e cobran\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>Com fala emotiva, Paul\u00e3o lembra onde constru\u00edram uma cabana, com cobertura de palha de coqueiro, logo que aqui desembarcaram.<\/p>\n<p>\u201cDepois, chegaram madeiras, restos de obras, e constru\u00edmos uma casinha melhor. As casas n\u00e3o tinham portas, era tudo aberto, porque todo mundo se respeitava, todo mundo era amigo os seus vizinhos. O terreno foi \u201cdoado\u201d pelo ent\u00e3o presidente Juscelino Kubitschek. Era um \u201cpresente\u201d para os candangos, dizia a autoridade, quando visitava aquelas comunidades pioneiras.<\/p>\n<blockquote><p><strong><em>\u201cEle mesmo ia avisar sobre a doa\u00e7\u00e3o, cumprimentava as pessoas, abra\u00e7ava as crian\u00e7as. Tinha uma popularidade muito grande, todos gostavam dele\u201d.<\/em><\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>A tal doa\u00e7\u00e3o era na palavra. Por isso, os contemplados iam delimitando os lotes. Faziam a medi\u00e7\u00e3o, esticavam uma linha e marcavam a propriedade de cada fam\u00edlia.<\/p>\n<p><strong>Dia da surpresa<\/strong><\/p>\n<p>Por\u00e9m, tempos depois, veio a surpresa! Doa\u00e7\u00e3o coisa nenhuma! Aquela gentileza era coisa de pol\u00edtico, pois cada morador tinha que pagar pelo terreno que j\u00e1 ocupava. Decep\u00e7\u00e3o geral.<\/p>\n<p>\u201cUm dia, veio a turma da Belacap (empresa que administrava a \u00e1rea p\u00fablica da capital, \u00e0 \u00e9poca) e come\u00e7ou a press\u00e3o para que os moradores pagassem pelo terreno que ocupavam. Lembro que eu ia pagar o carn\u00ea todos os meses\u201d, conta Paul\u00e3o sobre o presente grego recebido. \u201cS\u00f3 depois de tudo pago \u00e9 que liberavam a escritura\u201d.<\/p>\n<p>Hoje, profissional das artes marciais, professor e prestigiado capoeirista, ele recorda os seus primeiros anos por aqui, quando a capital estava em constru\u00e7\u00e3o, com sua maior \u00e1rea ainda era poeira e barro.<\/p>\n<p><strong>Pernada e capoeira<\/strong><\/p>\n<p>Com o tempo, o nome de Paul\u00e3o ficou vinculado \u00e0 implanta\u00e7\u00e3o e desenvolvimento da capoeira em Bras\u00edlia. Ele conta que tudo come\u00e7ou com uma das brincadeiras entre os garotos de ent\u00e3o, quando praticavam a \u201cpernada\u201d.<\/p>\n<p>\u201cPernada Carioca eram duas pessoas, uma atacando e a outra se defendendo, que simulavam um golpe com a perna ou uma cabe\u00e7ada. Essa brincadeira era acompanhada em rodas de samba. O advers\u00e1rio vinha me agredir e eu me defendia com uma pernada. Historicamente, era uma t\u00e9cnica que simulava ataque e defesa, que come\u00e7aram a ser ensinadas em academias, l\u00e1 nos anos de 1930. Era a origem da capoeira\u201d, lembra Paul\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Tablado<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 adolescente, entre uma pernada e outra, Paul\u00e3o vendia \u201cvassourinhas\u201d, que um vizinho, Doda, fabricava para crian\u00e7as.<\/p>\n<blockquote><p><strong><em>\u201cDoda era um cara perigosos. Era um pernambucano metido a brigador. Era muito bom de pernada. Nem a Pol\u00edcia chegava junto\u201d.<\/em><\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Um dia, Doda e Paul\u00e3o capinaram um lote em Taguatinga e ali colocaram um tablado para jogar pernada, sem imaginar que estavam implantando a capoeira na Capital da Rep\u00fablica, ainda deserta, comparada aos dias atuais.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/paulao2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-2363 size-medium\" src=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/paulao2-196x300.jpg\" alt=\"\" width=\"196\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/paulao2-196x300.jpg 196w, https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/paulao2.jpg 567w\" sizes=\"auto, (max-width: 196px) 100vw, 196px\" \/><\/a>Para refor\u00e7ar o que faziam, Paul\u00e3o e Doda passaram a contar com um livro importante, lan\u00e7ado \u00e0 \u00e9poca pelo consagrado Mestre Lamartine Pereira da Costa, uma das maiores refer\u00eancias mundiais em educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica. Em 1961, Lamartine lan\u00e7ou dois livres, \u201cCapoeira sem Mestre e, pouco depois, \u201cCapoeiragem \u2013 A Arte da Defesa Pessoal Brasileira\u201d.<\/p>\n<p>Ao som do berimbau, do atabaque, das palmas ritmadas e o jogo de corpo, gingando e simulando uma luta, lembravam o tempo da escravatura, quando os negros, tristemente, eram at\u00e9 proibidos de dan\u00e7ar.<\/p>\n<p><strong>Paix\u00e3o pela capoeira<\/strong><\/p>\n<p>Paul\u00e3o lembra da primeira turma de capoeira que se formou em Taguatinga. Al\u00e9m dele e Doda, tinham o Catielba, o Marc\u00e3o, Sula e Marco Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p>Em 1961, eles estudavam na Escola Classe n\u00ba 1, quando viram um berimbau pela primeira vez. \u201cO professor Jo\u00e3o, de Hist\u00f3ria, nos viu jogando pernada e no dia seguinte levou um berimbau. Aquele instrumento marcou minha lembran\u00e7a, fiquei apaixonado e foi ent\u00e3o que comecei a investir na capoeira. Quando comecei a ficar mais espertinho vinha para o Plano. Mas era dif\u00edcil chegar aqui. N\u00e3o tinha estrada, era um buraco s\u00f3 e muito eucalipto.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, Paul\u00e3o improvisou um berimbau usando uma lata de Leite Ninho amarrada ao bambu com um arame e dali tirava o som, \u201cquebrando o galho\u201d para marcar o ritmo da cantoria.<\/p>\n<p>Com o tempo, Paul\u00e3o foi estudar no Elefante Branco, at\u00e9 hoje uma das escolas p\u00fablicas de refer\u00eancia na Capital. L\u00e1 tinha aula de capoeira. A cal\u00e7a para lutar era feita de saco de farinha, branco, cor tradicional da veste do capoeirista.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2364\" aria-describedby=\"caption-attachment-2364\" style=\"width: 425px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/paulao3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2364\" src=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/paulao3.jpg\" alt=\"\" width=\"425\" height=\"363\" srcset=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/paulao3.jpg 425w, https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/paulao3-300x256.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 425px) 100vw, 425px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2364\" class=\"wp-caption-text\">Paul\u00e3o sempre levou a capoeira \u00e0s ruas, contribuindo para a sua populariza\u00e7\u00e3o (Acervo pessoal)<\/figcaption><\/figure>\n<p>As brigas continuavam na rotina de Paul\u00e3o. Na escola, \u201co pau tamb\u00e9m comia&#8230; Era briga de rua, mas n\u00e3o envolvia arma, era na porrada mesmo\u201d, recorda Paul\u00e3o, rindo muito daqueles bons tempos. \u201cDepois da briga, todo mundo ficava amigo e se abra\u00e7ava. Era muito diferente de hoje\u201d.<\/p>\n<p><strong>Os estudos<\/strong><\/p>\n<p>No terceiro ano, Paul\u00e3o foi reprovado e foi chamado pela Professora Zenaide. Ela deu uma li\u00e7\u00e3o inesquec\u00edvel. Falou que a bagun\u00e7a que ele fazia e as brigas atrapalhavam o seu aprendizado. \u201cAquilo marcou a minha cabe\u00e7a. Mudei mesmo a partir da\u00ed\u201d, diz Paul\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois, ele foi estudar no SENAI, mas no intervalo das aulas ia treinar capoeira. L\u00e1, se formou como o segundo melhor aluno do curso de tornearia e foi indicado para trabalhar na Varig, no Aeroporto.<\/p>\n<p>\u201cO torno e o micro torno eram a minha especialidade, fazia as pe\u00e7as sem sujar o ambiente, s\u00f3 as m\u00e3os\u201d, recorda. Dali, foi parar na Tornearia Gastone, de um italiano, enquanto estudava Eletr\u00f4nica no Col\u00e9gio Objetivo.<\/p>\n<p><strong>As lutas<\/strong><\/p>\n<p>Enquanto estudava, Paul\u00e3o treinava jud\u00f4, capoeira e telecatch no Clube Nipo Brasileira, em Taguatinga. O professor era o Dr. Who. \u201cCom 21 anos, eu era faixa marrom (que antecede a preta). Eu era o bambambam no jud\u00f4\u201d.<\/p>\n<p>Em 1969, quando ainda estudava no Col\u00e9gio Objetivo, chegou em Bras\u00edlia Waldemar Santana (1929 \u2013 1984), consagrado lutador de boxe, luta livre, jiu-jitsu, capoeira, carat\u00ea e vale tudo. Com a Fam\u00edlia Gracie, ele ajudou a difundir as lutas esportivas pelo pa\u00eds. Morreu aos 57 anos num acidente de carro.<\/p>\n<p>\u00c0 \u00e9poca, o Professor Paro era o mais destacado lutador de Bras\u00edlia e, por isso, aceitou o desafio de lutar com Waldemar Santana. A luta durou 45 segundos e Paro saiu do ringue com o bra\u00e7o quebrado&#8230;<\/p>\n<p>Algum tempo depois, a revanche, no gin\u00e1sio de esportes da Pol\u00edcia. Paul\u00e3o foi com o amigo Jorge, que era sobrinho de Waldemar. Os dois entraram de gra\u00e7a. Come\u00e7ou a luta e outra vez bra\u00e7o quebrado, dessa vez com recorde, 35 segundos&#8230;<\/p>\n<p>Paul\u00e3o decidiu treinar com Waldemar Santana. Hoje, continua reconhecendo a import\u00e2ncia daquela decis\u00e3o. \u201cEu N\u00e3o tenho d\u00favidas, Waldemar foi o meu grande mestre, o cara que me ensinou tudo o que sabia\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e9lio Tremendani, hoje mais para a cultura musical do que para as lutas, tentou o boxe na mesma ocasi\u00e3o. N\u00e3o deu certo.<\/p>\n<blockquote><p><strong><em>\u201cMe apresentaram para o Waldemar, conversamos e ele come\u00e7ou a me ensinar. N\u00e3o certo, mas ele ficou meu camarada\u201d.<\/em><\/strong><strong>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Paul\u00e3o, ao contr\u00e1rio, continuou nos treinamentos. Ele e Tonh\u00e3o, outro da turma do \u201cvamos pro pau\u201d. A dupla se deu bem, pois tinham aula de gra\u00e7a com Waldemar e ganhavam comida de gra\u00e7a. Em troca, davam aulas para os alunos dele.<\/p>\n<p>Com Waldemar ensinando a hist\u00f3ria era outra. At\u00e9 ent\u00e3o, Paul\u00e3o praticava mais a luta livre, agarrar, chutar, socar. Mas, com Waldemar, tinha que aprender jiu jitsu, carat\u00ea, boxe e capoeira.<\/p>\n<blockquote><p><strong><em>\u201cCom Waldemar, a conversa era outra. A gente era um lutador completo. Quem treinava com ele podia ir pra luta, mesmo! E eu tinha o instinto de lutador\u201d<\/em><\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Esteio<\/strong><\/p>\n<p>Fora das aulas, Paul\u00e3o era o \u201cesteio\u201d do grupo liderado por Waldemar Santana. Isto \u00e9, o cara que estava pronto pra brigar a qualquer momento, jud\u00f4 boxe, capoeira&#8230;<\/p>\n<p>Eu ia a todos os campeonatos e voltava campe\u00e3o. Cheguei a ser tricampe\u00e3o da luta greco-romana e vice-campe\u00e3o brasileiro de boxe, na categoria peso-m\u00e9dio.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2365\" aria-describedby=\"caption-attachment-2365\" style=\"width: 618px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/paulao4.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-2365\" src=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/paulao4-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"618\" height=\"412\" srcset=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/paulao4-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/paulao4-300x200.jpg 300w, https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/paulao4-768x512.jpg 768w, https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/paulao4.jpg 1299w\" sizes=\"auto, (max-width: 618px) 100vw, 618px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2365\" class=\"wp-caption-text\">Paul\u00e3o, com o campeon\u00edssimo (peso-galo) \u00c9der Jofer (1936 \u2013 2022), \u00eddolo no boxe (Acervo pessoal)<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Refor\u00e7o<\/strong><\/p>\n<p>Waldemar trouxe da Bahia o Sans\u00e3o, para ensinar capoeira. Sans\u00e3o era amigo do Manoel Bonfim, o \u201cBoa Morte\u201d, que dava aula de boxe. Ubirajara, o Bira, dava carat\u00ea, e o Eri Sardela, que era um delegado, dava aula de jiu jitsu. N\u00f3s t\u00ednhamos a nata dos mestres das lutas. E ainda tinha o Ant\u00f4nio Carlos Testa, um mineiro que estudava aqui em Bras\u00edlia e se tornou Mestre em carat\u00ea. Mas, Paul\u00e3o guarda destaque para um mineiro, at\u00e9 hoje reconhecido por seus alunos:<\/p>\n<p>\u201c<strong><em>Eu treinei com o Testa. Foi meu grande mestre no carat\u00ea, uma das minhas refer\u00eancias<\/em><\/strong>\u201d<\/p>\n<p><strong>Persist\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Nessa fase de aprendizados e lutas, Paul\u00e3o faz uma correla\u00e7\u00e3o: n\u00e3o era apenas o lutar pelo lutar. Mas, tinha tudo a ver com \u201ca persist\u00eancia do negro, a luta pela vida para n\u00e3o ficar por baixo. Faz parte da origem da ra\u00e7a\u201d, explicou.<\/p>\n<p><strong><em>\u201cMinha educa\u00e7\u00e3o era do tipo apanhou na rua, apanha em casa. Aprendi que nunca queria ficar por baixo. Se aparecia algu\u00e9m querendo humilhar por causa da cor, eu resolvia na porrada\u201d!<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Discrimina\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Da teoria para a pr\u00e1tica: a primeira vez que Paul\u00e3o sofreu discrimina\u00e7\u00e3o foi no Clube Primavera, em Taguatinga, que reunia os 200 empres\u00e1rios mais ricos da cidade. Domingo era dia de baile, \u201cdia de ver as gurias bonitas\u201d. Para poder frequentar, o amigo Samuca apresentou toda a documenta\u00e7\u00e3o para que Paul\u00e3o se tornasse s\u00f3cio do clube. Por\u00e9m, o seu nome n\u00e3o foi aprovado. Motivo: era negro!<\/p>\n<p>Para resolver o problema, Paul\u00e3o juntou a turma que pulava o muro e pau quebrava no baile. Um dia, dois moleques bateram no \u201cSeu Vasco\u201d, que era o secret\u00e1rio geral do clube. A turma de Paul\u00e3o entrou em campo e acabou com a valentia da molecada. E a\u00ed tudo se resolveu. Criaram uma categoria de \u201cS\u00f3cio Atleta\u201d em que os negros eram admitidos.<\/p>\n<p><strong>Vestibular<\/strong><\/p>\n<p>Em 1979, Paul\u00e3o entrou em quinto lugar para o curso de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica da Faculdade Dom Bosco. \u201cAprendi a nadar em uma semana pra n\u00e3o ser reprovado\u201d, recorda.<\/p>\n<p>Na faculdade, Paul\u00e3o se decidiu pela luta-livre, quando recebeu o desafio de Zulu, que dividia com Rickson Gracie o p\u00f3dio de melhores do Brasil.<\/p>\n<p>O maranhense de S\u00e3o Luiz, Casimiro de Nascimento Martins, conhecido por Rei Zulu, lutou at\u00e9 os 63 anos. Era especialista em vale-tudo e viajava pelo Brasil desafiando lutadores. Veio a Bras\u00edlia e Paul\u00e3o aceitou o desafio, numa luta que \u201cparou a cidade&#8221;. O \u00e1rbitro foi H\u00e9lio Gracie, o patriarca da fam\u00edlia que dominou as lutas no Brasil por longos anos.<\/p>\n<p>Paul\u00e3o perdeu. \u201cEle meteu o dedo no meu olho. Sa\u00ed cego do ringue\u201d, garante. Eu ia continuar lutando, mas o doutor Fleury Machado, que era o meu m\u00e9dico, jogou a toalha.<\/p>\n<p>Depois dessa, Paul\u00e3o voltou \u00e0 Faculdade Dom Bosco e foi chamado \u00e0 sala do Professor Mileno, diretor \u00e0 \u00e9poca e uma das refer\u00eancias na educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica brasileira.<\/p>\n<blockquote><p><strong><em>\u201cTomei uma bronca inesquec\u00edvel, uma aula, uma li\u00e7\u00e3o. Disse que, agora, eu era um professor, um educador, n\u00e3o pode ficar subindo em ringue para lutar. Valeu! Tomei um norte na vida\u201d<\/em><\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Nessa decis\u00e3o, Paul\u00e3o tomou como exemplos os seus \u201cMestres\u201d no curso da Dom Bosco, como os consagrados professores Feij\u00e3o, Mingo, Bicalho e a Professora Teia. Tinha mais, o Nilton da gin\u00e1stica e Ary Fa\u00e7anha de S\u00e1, ex-atleta ol\u00edmpico do atletismo.<\/p>\n<p>\u201cS\u00f3 tinha fera\u201d nessa Faculdade, reconhece. Eles impunham respeito, uma grande li\u00e7\u00e3o. Mas, um se diferenciava, \u201co meu Mestre Jo\u00e3o Oliveira\u201d, disse Paul\u00e3o. \u201cQuem estudou com Jo\u00e3o Oliveira tinha que ter postura. E eu passei a ser isso\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e9lio Tremendani, participando da entrevista, confirmou:<\/p>\n<p><strong><em>\u201cDe fato, Jo\u00e3o Oliveira fazia a diferen\u00e7a. E tenho orgulho de dizer que era como se eu fosse filho dele\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><strong>Desafio<\/strong><\/p>\n<p>Dos ringues para o samba: em 1989, \u201ctr\u00eas negr\u00f5es\u201d abriram o \u201cBoca do Bal\u00e3o\u201d, o primeiro bar de samba de Bras\u00edlia, no Gilbertinho, o lugar chic da sociedade brasiliense, onde a elite se reunia nas horas de lazer.<\/p>\n<p>\u201cEra o lugar mais preconceituoso de Bras\u00edlia, s\u00f3 branco circulava por l\u00e1\u201d, diz Paul\u00e3o que, com Julinho C\u00e9sar (filho de Julinho do Samba, compositor) e Ubirajara Mariano de Castro, o Bira Negr\u00e3o, compraram o tal bar e ali fizeram sucesso com samba de primeira, por cerca de tr\u00eas anos.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e1bado \u00e0 tarde o point do samb\u00e3o e pagode de mesa de bar era l\u00e1 mesmo. Derrubamos o preconceito, porque o som era de primeira e os brancos come\u00e7aram a frequentar, o pessoal das embaixadas e at\u00e9 militares iam pra l\u00e1. Vend\u00edamos, em m\u00e9dia, 100 caixas de cerveja por s\u00e1bado\u201d, recorda Paul\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>ARUC<\/strong><\/p>\n<p>Foi nessa ocasi\u00e3o que Paul\u00e3o ingressou na ARUC \u2013 o mais carnavalesco e premiado clube de samba de Bras\u00edlia. \u201cFui pra ARUC convidado pelo Sabino, que era o presidente na \u00e9poca. Milton de Oliveira Sabino, era um cara simples, dois metros de parceiro, que morreu em 1980, lamentavelmente\u201d.<\/p>\n<p>Bira e Abelardo, do handebol, recepcionaram Paul\u00e3o, e a hist\u00f3ria dessa modalidade come\u00e7ou a mudar em Bras\u00edlia. O time foi refor\u00e7ado com jogadores do Cota Mil, onde um diretor resistia \u00e0 entrada de negros no clube. Resultado: foram todos para a ARUC, e j\u00e1 no ano seguinte o time ganhava o Brasileiro Junior, em Santo Andr\u00e9 (SP). Em seguida veio o bicampeonato. \u201cO time era uma m\u00e1quina\u201d!<\/p>\n<figure id=\"attachment_2366\" aria-describedby=\"caption-attachment-2366\" style=\"width: 618px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/paulao5.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-2366\" src=\"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/paulao5-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"618\" height=\"412\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2366\" class=\"wp-caption-text\">Mestre Paul\u00e3o, em pleno desempenho numa roda de capoeira (Acervo pessoal)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em 1984, Paul\u00e3o criou a Associa\u00e7\u00e3o Afro-Regional de Capoeira do DF, uma academia em Taguatinga. Fez concurso para a Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o e foi aprovado mas, sempre\u00a0 vinculado \u00e0 capoeira, sua paix\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cAtualmente, trabalho com 80 crian\u00e7as Down, cadeirantes e autistas, no Centro Educacional N\u00ba 6 de Taguatinga, pelo Centro de Inicia\u00e7\u00e3o Desportiva (CID). Temos muitos ex-alunos dando aula de capoeira pelo mundo. Mas o mais importante \u00e9 que os meus alunos de ontem, quando me encontram na rua, me cumprimentam, me respeitam.<\/p>\n<blockquote><p><strong><em>\u201cO Professor Mileno tinha raz\u00e3o, quando me alertou que eu era \u2013 e sou \u2013 uma refer\u00eancia para os meus alunos\u201d <\/em><\/strong><\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por\u00a0H\u00e9lio Tremendani e Jos\u00e9 Cruz Ainda crian\u00e7a, Paul\u00e3o aprendeu o que significava \u201cVamos \u00e0 luta\u201d. No in\u00edcio, luta era briga, mesmo! Nos tempos de escola, um olhar atravessado j\u00e1 era motivo para sair no bra\u00e7o. Hoje, Paul\u00e3o \u00e9 consagrado Mestre da Capoeira, professor, sambista, desportista e o terceiro entrevistado da \u201cGera\u00e7\u00e3o Dom Bosco de Educa\u00e7\u00e3o &hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2366,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13,6,4,16,14],"tags":[],"class_list":["post-2361","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","","category-colunistas","category-entrevistas","category-esporte","category-helio-tremendani","category-jose-cruz"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2361","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2361"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2361\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2368,"href":"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2361\/revisions\/2368"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2366"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2361"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2361"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/memoriadaculturaesportebsb.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2361"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}