Por Hélio Tremendani
Brasília, essa balzaquiana querida mas tão jovem para mim, merece retrospectivas seguidas de como era ontem e seus progressos até os dias de hoje.
Ainda tenho boa memória e seguidamente escrevo sobre a Brasília que vivi, nos seus primeiros anos e suas dificuldades, quando se levava mais de uma hora para chegar em Taguatinga, por exemplo. Mesmo assim, bons tempos aqueles…
Para viajar mais nessas lembranças recorro, também, às pesquisas e publicações de tantos que escrevem sobre a história de nossa Capital. Entre esses autores destaco, na área do esporte, o jornalista Gustavo Mariani, que foi repórter no Jornal de Brasília e Correio Braziliense. Ele publicou livros que, para os saudosistas ou amantes da cidade, vale a pena a leitura.
Repórter de referência
Com o tempo, visitava Mariani nas redações, também um pioneiro e colecionador das histórias de Brasília. Ele se tornou um dos repórteres de referência na coleção de histórias do esporte na Capital da República. Sem sombra de dúvidas, o trabalho que os jornalistas esportivos realizaram é, hoje, de um valor histórico enorme. Tudo numa época em que os jornais eram o principal meio de comunicação e registraram os fatos que se sucediam, também no esporte, com o passar dos anos, até chegarmos a este 2026, quando nossa capital completa 66 anos de sua fundação.
Nos anos 1980 e 1990 eu levava para Mariani notícias (releases) da Aruc, do nosso futsal ou handebol. Ele sempre me atendeu legal e ajudou a divulgar a nossa Associação. Com o tempo, passamos a conversar sobre Brasília e sua evolução. Até contei para ele momentos que vivi, ajudando na recuperação de fatos, confirmando épocas e ajudando a identificar personagens das histórias que ele contaria em belos textos de seus livros (“Histórias do Esporte em Brasília” e “Bola Federal”).
Teatro Nacional
Agora mesmo, vou a um desses livros que Mariani escreveu, “Memórias do Futebol de Salão”, que na sua Parte I traz lembranças do esporte praticado, acreditem, no Teatro Nacional. Lá no início, havia apenas um reduto coberto na cidade para jogar futebol de salão ou outros esportes, o Ginásio Santo Antônio. Já no Teatro Nacional havia espaço que podia ser adaptado para se jogar, e assim se fazia enquanto crescia o esporte na nova capital. Entre esses, o vôlei, que também usou as dependências do Teatro Nacional para realizar partidas, com bom público ocupando as confortáveis poltronas que, mais tarde, receberia a plateia que iria assistir aos espetáculos teatrais. Um teatro polivalente, raro no mundo, quem sabe.
1963 – Sala Vila Lobos do Teatro Nacional recebe jogo de vôlei no seu amplo palco de apresentações artísticas
Futebol de Salão
Os atletas chegavam ao local das disputas como podiam, diante da ainda precária rede de transportes coletivos que aqui nascia. Contam que o time de Taguatinga vinha todo numa Lambretta, valente transporte sob duas rodas que suportava mais de 300 quilos, sabe-se lá como. Mas há quem tenha visto essa cena, contou para alguém e isso acabou ficando na história – ou folclore – das origens de Brasília.

Como no futebol, o futebol de salão também jogava no amplo palco da Sala Vila Libos do Teatro Nacional, que ainda construiria mais duas salas, tornando-se um dos monumentos arquitetônicos de orgulho do brasiliense, em geral. Assim como no futebol, os times de futebol de salão também estavam vinculados a empresas construtoras, principalmente. O CIT de Taguatinga, por exemplo (Companhia Imobiliária), tinha um time que sempre chegava atrasado para os jogos devido à precariedade do transporte na época. Mas, segundo as pesquisas de Gustavo Mariani, não perdia por WO. Os adversários entendiam aquela realidade e aguardavam pacientemente o adversário chegar.
Outros times
No Núcleo Bandeirantes as construtoras Ecisa, EBE, Nacional, além da CEB, que criou o “Força e Luz, também tinham times de futebol, futebol de salão ou os dois, com uniformes que levavam o nome das empresas. Peladas e torneios oficiais iam surgindo para dar espaço aos atletas da época.
Foi num desses torneios promovidos pela Federação Desportiva de Brasília que em 1961 surgiu o Clube de Regatas do Guará. No mesmo ano foi formada uma “Seleção” para ir ao Campeonato Brasileiro de Belo Horizonte. A equipe não foi bem, mas os registros nos livros de Mariani indicam que a delegação “ficou marcada pela disciplina”.
Registros
Outros registros indicam que em 1962 o Motonáutica, às margens do Lago Paranoá, clube de funcionários náuticos construíram suas quadras e os torneios não pararam mais no nome espaço. Em 1963, o jornalista Nilson Nelson promoveu um torneio com 68 equipes e havia times da Marinha, do Batalhão da Guarda Presidencial (BGP), da Avenida W3, enfim de todos os cantos da cidade participaram. Nilson Nelson revelou-se um importante repórter esportivo e hoje dá nome ao principal ginásio da cidade, no complexo esportivo onde está o monumental estádio de futebol Mané Garrincha.
Seleção de Brasília – 1973 – Da esquerda para a direita:
Em pé: Lula, Axel, Otávio, Mosquito, Heitor, Tarso, Erivan, Tito, Zé Antônio (preparador físico) e Carlos Tolentino (treinador)
Agachados: Padre Neco (massagista), Guairacá, Neto, Hermínio, Braguimar, Arnaldinho e Walmir –
Fonte: Galdino Neto
Segundo aniversário
No parágrafo a seguir, peço licença ao amigo Gustavo Mariani para transcrever um pequeno capítulo do seu livro “Histórias do Espore em Brasília”. Vamos lá:
“No segundo aniversário de Brasília viriam (disputar um torneio) o Grajaú Tênis Clube (RJ), o Jockey Clube de Goiânia, o Minas Tênis Clube (de Belo Horizonte) e a Seleção de Brasília ganharia seu primeiro título, mas entusiasmou-se tanto que depois trouxe o Vila Isabel (RJ) de Aécio, Giza, Serginho, Djalma Santos etc, e levou de seis. Renatinho, Kleber Soares do Amaral, Azulinho, Luiz Roberto/ Paulo Roberto Rodrigues da Cunha, Beto, Beto Preto, e os irmãos Spozel formaram as primeiras seleções. Renatinho em um torneio em Caratinga (MG), jogava contra o Silvers Boys e há uns 30 segundos do final houve um chute cruzado pela direita e a bola foi para a gaveta esquerda. O Náutico vencia por 3×2 e a bola já havia passado por ele que voou para trás, enroscou-se com a bola e caiu rolando como um tatu. A torcida invadiu a quadra e o carregou pelas ruas da cidade”.
Para encerrar

Encerramos esta pequena retrospectiva publicando uma foto do time de futebol de salão do Minas Brasília Tênis Clube (MBTC) de 1974. Trata-se de uma das mais tradicionais agremiações sociais e desportivas da cidade, incentivadora da prática do bom esporte, o futebol e o futsal, de hoje, entre eles. Essa equipe do Minas de 1974 eu também vi jogar. Era um timaço que dá gosto recordar:
Memórias da Cultura e do Esporte de Brasília
