28 de julho de 2026

Uma caribenha afinadíssima no samba

Por Hélio Tremendani e José Cruz

 A ilha Hispaniola é uma só, mas com uma fronteira que divide dois países, o Haiti e a República Dominicana, às margens do mar do Caribe, a menos de 100 km de Cuba.

Foi nessa ilha, precisamente em Porto Príncipe, que nasceu a haitiana Myriam Tassy, que ao longo dos anos e com alma já bem brasileira revelou-se artista na interpretação de sambas e da MPB. Os historiadores dizem que o Haiti é o país mais africano das américas. Myriam está aí, numa carreira que confirma a tese.

O pai de Myriam, Jean Tassy, pertencia ao corpo diplomático do Haiti e em 1968 veio a serviço para o Brasil, trazendo a família. Nos primeiros anos eles ficaram no Rio de Janeiro, mas em 1970 desembarcaram em Brasília onde Myriam revelou-se cantora e fez formação em música, arte que lhe rende prestígio até hoje.

Como herança de família, Myriam adotou o samba, e enriqueceu o seu repertório com clássicos da MPB, a nossa Música Popular Brasileira, seguindo cantoras e cantores nacionais.

Enquanto morou na Ilha caribenha, até os 4 anos, Myriam ouviu o “compas”, legítimo ritmo haitiano, e o “merengue”, típico da República Dominicana. A principal diferença entre esses estilos musicais está no andamento, na velocidade dos ritmos e na instrumentação. Porém, os dois ritmos têm raízes africanas, mas evoluíram de formas diferentes. Depois, graças a longa convivência no Brasil, Myrian incorporou o samba, também de origem africana, em seu repertório.

“Gosto muito do ritmo do meu país”, diz Myriam. Ela lembra, com orgulho, que um dos presidentes do Haiti era político e músico, Michel Joseph Martelly (foto), também conhecido pelo nome artístico de Sweet Micky. Ele presidiu o país de 2011 a 2017.

 Carnaval e sarau

Foi no embalo desse ritmo brasileiro que, em 1970, já morando em Brasília, Myriam participou de seu primeiro Carnaval.

“Foi na W3 Sul, com as escolas desfilando em frente à loja Bibabô”, relembra ela, citando essa loja que já foi referência nessa avenida comercial. O interessante é que Myriam mal poderia imaginar que, décadas mais tarde, em 2024, ela seria uma das primeiras mulheres intérpretes da tradicional e campeoníssima escola de samba da Aruc, com o samba-enredo “Todos os azuis do Azul”.

“Cresci ouvindo samba, samba-canção e bolero. Meus pais gostavam muito de música e seguidamente ofereciam saraus para os amigos, que eu acompanhava com outros quatro irmãos”, diz ela, explicando a influência familiar na sua formação.

Escola

Essa escola em família teve origens, também, em outra valiosa tradição: a mãe de Myriam, Marthe, era irmã do consagrado Maestro Raoul Guillaume.

O lendário Raoul Guillaume era um saxofonista haitiano renomado e consagrado, também um talentoso líder de banda e arranjador.

Convivendo nesse ambiente não é de admirar que Myriam, sobrinha de Raoul, atenta à rotina musical em que cresceu, viesse a se tornar intérprete apaixonada de sambas,  ritmo patrimônio nacional e herança cultural afro-brasileira.

O primeiro show

Em um dos saraus promovidos pelos pais, já em Brasília, a ainda jovem e confiante Myriam achou que era hora de apresentar seu potencial na música.

Sabendo que tinha afinação, encheu-se de ânimo e cantou acompanhada pelos músicos Cezinha na Gaita, Daniel Júnior e Milton Brasília. E para demonstrar que não estava para brincadeiras, cantou um clássico da música romântica, “Eu vou ter sempre você”, canção de Antônio Marcos, que diz nos primeiros versos:

Você jamais saberá, querida
A falta que você faz em mim
Meu coração se nega a pensar
Em outro alguém…”

Myriam foi aplaudida e recebeu elogios dos músicos. “Amei. Foi assim que descobri a minha paixão pelo canto, foi assim que tudo começou e sigo até hoje”

Para progredir na carreira que desejava ela ingressou no curso de Canto da Universidade de Brasília. “Queria melhorar a técnica vocal”, diz ela. Suas apresentações mostram desenvoltura, entonação e vibração a cada música. Confira o desempenho dessa artista neste link: @cantora.tassy

O ganzá

Sobre instrumentos Myriam é modesta e afirma que toca “superficialmente”. E completa: “No violão toco de tudo, me acompanho”. E faz uma revelação que expõe a sua raiz africana: “Meus instrumentos de paixão verdadeira são o ganzá, o tamborim e o surdo”.

O ganzá (foto) é um instrumento musical muito presente no samba, pagode e MPB. Atua como um chocalho contínuo, preenchendo a base rítmica da música com um som característico de sementes sendo agitadas dentro de um cilindro que emite boa sonoridade.

Referências

No início da carreira, Myriam se espelhou em Elis Regina, Alcione e Beth Carvalho, na foto (1946-2019), sendo que essa última ela se refere como “minha rainha, meu grande amor”. E teve como acompanhantes nas primeiras apresentações os músicos Sezinha da Gaita, Iron júnior, sambista, cantor e compositor com quem fez dois trabalhos, Evandro Barcelos entre outros.

Nos palcos, entoando serestas, sambas, sambolero dos cantores da época Myriam se apresentou no Chorão, Flor Amorosa, Cavaquinho, Feitiço Mineiro (saudosa lembrança…), Fundo do Mar, no Cruzeiro Novo, entre outros prestigiados redutos da noite musical brasiliense.

Em família

A escola musical em que se formou foi reforçada por outro nome de peso: o companheiro afetivo de Myriam é o pernambucano Senô, abreviatura de Senival Bezerra, que integra a ala do repinique na Bateria Carcará, da Aruc.

Senival é filho do consagrado Maestro Senô (1932–2005), Senival Bezerra do Nascimento, destaque nos sites de pesquisa onde aparece como compositor, arranjador e que dominava, também, o trombone, pistom e o piano.

Senô, o pai, tocou em várias orquestras e bandas brasileiras e gravou em discos com Os Paralamas do Sucesso; estudou música na Universidade de Boston, nos Estados unidos, e escreveu artigos para jornais sob o pseudônimo de “Professor Zanatas”.

Mãe de Bruna, 32 anos e Nathalia, 34, ambas do primeiro casamento, Myriam começou como vocalista do Samba Flores, quando se dedicava mais à MPB. Depois, identificou-se com mulheres sambistas e descobriu que sua “praia” era mesmo o samba. Foi então que começou a interpretar músicas de Alcione, Clara Nunes, Maria Rita, Lecy Brandão, Beth Carvalho… “mas sem abandonar a MPB”, ressalta. Entre os cantores, ela destaca Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, , Almir Guineto, o grupo Fundo de Quital…

“O samba é ritmo, resistência, felicidade, atitude; é pilar da nossa cultura, traduz o que é o Brasil e as nossas origens”

Projetos

Myriam desenvolve vários projetos musicais, mas sem uma banda fixa. “Crio trabalhos e vou apadrinhando bandas novas, levando o samba ao público. Convido músicos para se apresentarem, vou fazendo rodízios e dando oportunidades a outros artistas”, resume sobre o intercâmbio cultural e musical que promove.

Na entrevista, Myriam não escondeu o entusiasmo com que se dedica aos seus projetos, como “Elas no Samba”, um grupo só de mulheres com Myrian (voz e ganzá), Brunna Tassy (voz e violão), Samira Guerra (cavaquinho e banjo), Iara Alvarenga (surdo) e Vanessa Lima (pandeiro).

Aos domingos Myriam costuma se apresentar no “Samba no Eixo” e às sextas-feiras no Dom Barros Gastrobar, mas tudo isso liderado pelo “Samba Tassy”, o carro-chefe de seus projetos que engloba músicas atuais até as que satisfazem os saudosistas, em espanhol inclusive, como os boleros “Solamente una vez”, “Quiça, quiçá, quiçá’… ou o clássico samba-canção “Ronda”, composição de Paulo Vanzolini no distante ano de 1945 e gravada pela primeira vez por Inezita Barroso em 1953. São interpretações sempe acompanhada por um quarteto ou quinteto de músicos, no baixo, violão, cavaco, bateria e voz.

Obrigado, Myriam

Com 1,73m de altura Myriam demonstra, para quem não a conhece, perfil de uma aeromoça, com gestos delicados, alegre e sorriso constante. Mas ao conversar ela revela que ali está uma mulher que se destaca pela voz firme e de intérprete musical apaixonada.

Não poderia ser outra a sua profissão, pois desde cedo esteve intimamente ligada, por laços de família, à música. E o casamento dessa paixão se confirmou de vez quando veio morar no Brasil, com a família. Logo no Rio de Janeiro, capital do samba, que ela ouviu e

fez desse ritmo o ponto de partida para uma carreira de sucesso.

José Cruz, Myriam e Hélio Tremendani

Muito obrigado, Myriam, por dedicar parte de seu tempo para contar um pouco da sua história e de sua família musical, que os apaixonados pela boa música, pelo “velho” e bom samba agradecem.

 Para saber mais:

@sambadatassy

@cantora.tassy

@sambadamyriamtassy