Por José Cruz

Entrando na roda
O simpático “Chula”, apelido que Jorge Luiz trouxe do Rio de Janeiro, é bem conhecido no bairro do Cruzeiro, sede da Aruc, que ele frequenta com muita alegria. Gosta de música, mas, se for samba, sua paixão, logo ele entra na roda. Ali, com amigos também sambistas, não tem hora para chegar em casa. “Se tem samba, tô junto”, é uma das frases que repete com satisfação.
Perto de completar 77 anos – em setembro –, Chula é daqueles cariocas que se apaixonou pela capital da República. Peladeiro que foi, deixou o futebol na saudade. Só não se desvincula da música e da boa batida do samba. É um legítimo “Velha Guarda”, que orienta e serve de exemplo para a juventude que adere ao tradicional ritmo de centenas de sucessos.
Aula
“Há três anos cismei de tocar pandeiro. Os meninos me ensinaram as posições e comecei… um, dois, três, quatro e bate”… repete Chula, mostrando como sai o som desse instrumento milenar que veio do Oriente Médio, trazido pelos portugueses colonizadores e aqui foi integrado à nossa cultura. Com o passar do tempo, o pandeiro ganhou influência africana e se tornou símbolo da música brasileira.
“Não sou um grande pandeirista, mas acompanho certinho. Mas, para melhorar, não posso parar de praticar. Fico atento ao que os meninos me ensinam e isso me empolga”, diz o apaixonado sambista e pandeirista.
“Meninos” são os amigos da bateria da Aruc, sempre dispostos a ensinar a Chula um movimento no instrumento que marca bom ritmo na roda de samba.
Paixão
Aposentado, Chula não esconde a sua paixão pela música: “Só vejo o samba na minha frente”, diz ele. Para essa parceria se tornar mais íntima, até comprou um fone de ouvido, sempre ligado ao celular, sintonizado numa playlist de samba, claro.

Em casa, Chula tem um rádio, “daqueles antigos” que comprou pela internet. Nele, ouve emissoras que tem no repertório a boa música. Disco de vinil e CDs completam os “instrumentos” que fazem a alegria desse velhote bom de dança.
“Certa vez, me empolguei com os meninos. Cheguei às 4 horas da tarde na roda de samba e só saí à meia noite”, contou sobre as boas lembranças.
Chula não tem problemas de horário, é viúvo de Vanilda Alves, que conheceu num salão de bailes, o Previdenciário (foto), reduto da boa música, onde dançava boleros, valsas e samba, com certeza.
O sambista conta que sempre gostou de dançar e frequentava o Clube Previdenciário nos fins de semana. Certa noite, convidou Vanilda para dançar. O namoro começou na pista, o amor se fortaleceu e o casamento uniu o casal. Chula e Vanilda foram morar no Cruzeiro, onde nasceram os dois filhos, Marco e Luciana, que já lhes deram três netas e um neto. Porém, há dois anos ocorreu a triste separação com a morte de Vanilda.
Chula não esconde a tristeza quando fala sobre a partida da mulher que amou. De tal forma que não quis outra companhia, mora só e está muito bem, confessa. Enfrentou problemas sérios de saúde por conta do cigarro e muita bebida, até o dia em que passou mal e decidiu seguir o conselho médico que sentenciou: “Ou vive sem cigarro e bebida ou morre”.
– Decidi viver, – diz ele, orgulhoso da decisão. Se acostumou à nova rotina sem cigarro e sem bebida e compensou essas ausências com frequência mais assídua às rodas de samba em companhia de um pandeiro.

– O ritmo do samba faz bem aos ouvidos. Aqui na Aruc esqueço os problemas e as preocupações, – diz ele, sorridente e feliz com o ambiente onde é carinhosamente acolhido.
Esse é o real perfil de um legítimo sambista setentão, integrado à juventude que domina as modernidades de nosso tempo. É assim que Chula promove o intercâmbio entre o ontem e o hoje, mantendo vivo o ritmo do samba, ritmo que lhe desperta grande paixão.
O início
Em 1970 Chula veio visitar um tio que aqui morava e trabalhava no Ministério do Interior. Chegou, gostou e se enturmou com o pessoal das peladas, amigos de seus primos. Não demorou para que os novos amigos conseguissem um emprego para o carioca Chula, no Ministério das Relações Exteriores (foto).
“Eu estava com 21 anos. Fui contínuo, servia água e cafezinho a funcionários e visitantes das autoridades do ministério”, relembra. Aos poucos, Chula mostrou as suas habilidades e foi promovido para ajudar no Arquivo, onde se especializou e lá trabalhou por 42 anos.
“Fui trabalhar no setor que recebia as malas do exterior, com correspondências oficiais. Eu distribuía o que chegava entre os destinatários, nas várias seções” diz ele. Fez isso com tanta competência que acabou assumindo a chefia do Arquivo. Nesse setor mostrou novas aptidões administrativas e foi designado para uma viagem de trabalho a Passo de los Libres, na província de Corrientes, na Argentina. A cidade faz fronteira com o Brasil através da cidade de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul.
Outra viagem internacional de Chula foi para a distante Dinamarca, onde permaneceu por três meses, adaptando os arquivos da embaixada brasileira naquele país aos moldes do que fazia no Itamaraty.
“Gostei da Dinamarca, mas muito mais do Brasil. Senti saudades do samba e das noites de dança no Clube Previdenciário”, diz ele. Além disso, a turma brasileira na Dinamarca achava que Chula estava lá para substituir alguém, e essa desconfiança apressou o seu regresso. “Falei com a chefia de lá, expliquei os motivos reais e retornei, na boa”.
Antes de vir para Brasília, em 1965, Chula desfilava no Carnaval carioca na Escola Império do Marangá, do terceiro grupo, à época. Com o tempo e o crescimento do Carnaval Carioca, chegou a desfilar na Rio Branco e Presidente Vargas, tradicionais avenidas que antecederam o famoso espaço da Marquês de Sapucaí.
“Quando cheguei na Aruc, fiquei admirado com o Carnaval de Brasília. Quem me recebeu foi o Gildo Seixas que me apresentou ao grupo de passistas”, recorda o carioca-botafoguense.
Com esse vínculo, Chula parou de ir ao Carnaval do Rio de Janeiro para desfilar pela Aruc, a mais premiada escola de samba do Distrito Federal, com 31 títulos conquistados.
Para se tornar passista e ir para a avenida, Chula teve aulas com o Professor Flavinho. “Eu já sabia um pouco, mas ele deu um empurrãozinho no rumo certo”, revela Chula, que ainda hoje desfila pela Aruc. “Se tem batida de samba, tô junto. Gosto de estar no meio da farra, da música. Mas, sou um sambista que não bebe”.
Com tanta intimidade e paixão pela música, Chula revela que gosta de Benito de Paula, Jorge Bem Jor, Zeca Pagodinho, Neguinho da Beija Flor, Alcione, Diogo Nogueira, Paulinho da Viola…
música e pelo samba, mas
nunca imaginei que me
apaixonaria pela Aruc. O
povo aqui do Cruzeiro é
muito bom, é uma família.
Me sinto bem pra caramba.
É uma alegria, é a minha
segunda casa”
Memórias da Cultura e do Esporte de Brasília

