Por Hélio Tremendani e José Cruz

Os 12 anos sem desfiles oficiais das escolas de samba de Brasília não impediram o surgimento de uma nova geração de dirigentes, músicos e passistas dessas agremiações.
Nesta entrevista eles contam como atuam no Grêmio Recreativo Escola de Samba Bola Preta, de Sobradinho, e o trabalho para ajudarem na reativação do Carnaval brasiliense.
Presidente da Escola
Marcus Vinícius, 48 anos, nasceu em Sobradinho (DF). Ele é o presidente da Escola de Samba Bola Preta, fundada em 1974 por militares, entre eles o seu pai, Milton Soares, transferidos do Rio de Janeiro para Brasília. O nome da Escola foi escolhido em homenagem ao centenário Cordão da Bola Preta, do Rio de Janeiro, fundado em 1918.
“Meu pai era músico da Banda Militar e foi diretor e ritmista da Estação Primeira de Mangueira, no final da década de 1940”. E, na Escola de Samba Bola Preta, ele foi o primeiro Mestre de Bateria, função que Marcus Vinícius, seguindo os passos do pai também exerceu.
“Hoje eu sou o presidente da Escola que meu pai ajudou a fundar”.
Coincidência ou não, o nascimento de Marcus Vinícius foi em 1977, ano que se realizou o primeiro desfile carnavalesco do Bola Preta. Essa data e a convivência com o pai foram valiosos para motivar a formação de um legítimo carnavalesco brasiliense.
A carreira começou cedo. Quando tinha apenas 5 anos, Marcus Vinícius desfilou na Ala das Crianças, que estreou na Escola em 1982. “Dois anos depois eu já estava tocando tamborim”, conta ele sobre a sua trajetória no samba.
Para dar a sequência dessa tradição familiar no Carnaval, Marcus Vinícius já apresenta o seu filho mais novo, Ayan, de 7 anos (foto), ao ambiente da Escola. Já o filho mais velho, Danilo, de 29 anos, cuida do setor de audiovisual, especialidade em que é formado.
Dificuldades
O tempo passou, os desfiles se sucederam e chegou 2014, quando faltou apoio oficial para a Escolas de Samba e o Carnaval entrou em triste recesso por mais de uma década. Agnelo Queiroz era o governador.
“As escolas estavam na sua melhor época e até se falava na construção de um Sambódromo, mas tudo veio abaixo. O que tínhamos de credibilidade definhou”, conta Marcus Vinícius. “Agora, completamos 12 anos sem desfiles.

“Chegamos até aqui no peito, na raça e com o incentivo da Aruc e da Acadêmicos da Asa Norte, que sempre incentivaram e congregaram as demais agremiações, para que a gente possa mostrar a cara da Escola às nossas comunidades”, desabafa o presidente do Bola Preta.
Promessa
Para este ano, há a expectativa de um desfile fora de época, em março, promessa do atual governo.
“Esse desfile, programado para o final de março, poderá significar o renascimento para a nossa cultura carnavalesca. Observamos que as comunidades ganharam força, mesmo na dificuldade, cada uma buscou alternativas. A juventude passou a ter participação mais assídua, cresceu a participação das escolas nas redes sociais, o que nos dá mais visibilidade”.
Esse diálogo com o governo para o retorno dos desfiles é positivo, mas é preciso atenção, porque as agremiações não podem perder a oportunidade de opinar sobre como deve ser o Carnaval.
Novo formato
Na reunião da Uniao das Escolas de Samba de Brasília, Marcus Vinícius sugeriu que o desfile “fora de época” deste ano não tenha caráter competitivo e que a premiação pelos jurados seja pela exibição das agremiações. A proposta foi aceita.
“Nesse desfile, próximo ao estádio Mané Garrincha, o GDF garantirá o som, a arquibancada, a segurança, etc. O desfile representará a reconstrução do nosso Carnaval, mostrando que há uma unidade das agremiações e respeito ao tradicional desfile. Retornando vamos valorizar o desfile” conclui o dirigente da escola de Sobradinho.
Sede
Em Sobradinho, a principal dificuldade da Escola é a falta de uma sede. “Ter o nosso endereço significa termos a nossa identidade completa. É fundamental, porque ali poderemos fincar a nossa bandeira dando o ponto de referência para a comunidade”, avalia Marcus Vinícius.
Atualmente, essa referência de endereço da Escola é uma quadra, descoberta, ao lado da Rodoviária de Sobradinho. É ali que são realizadas as oficinas para as crianças e outras atividades afins.
Passista, na raça!
A sorridente goiana Aryellen Moreira, há muitos anos morando em Brasília – Sobradinho e Planaltina – se sacudia desde sempre ao ouvir o som de um samba ou pagode.
Agora, aos 28 anos, Aryellen se integrou de vez ao movimento carnavalesco vestindo as cores do Bola Preta, de Sobradinho. O seu ingresso nessa jornada que tanto desejou foi uma epopeia.
“Trabalho na academia Ultra. Escuto muito samba num fone de ouvido e vou treinando os meus passos”, diz ela. E revela, logo, quem é a sua referência nesse quesito: “Mayara Lima, rainha da bateria da Escola Paraíso do Tuiuti, uma das celebridades do Carnaval carioca. No recente desfile no Sambódromo a apresentação de Mayara foi tratada pela imprensa como “um acontecimento”, tal desenvoltura dessa morena na avenida.
Sonho
“O meu sonho era estar numa escola de samba e consegui. Sou passista do Bola Preta”, diz Aryellen, exibindo o orgulho e o prazer de estar iniciando nessa arte.
Sem dúvidas, Aryellen buscou esse espaço. Foi ensaiando sozinha, sambando nas reuniões com amigas e amigos, treinando os passos enquanto ouvia um samba ou pagode e até enfrentando oposições domésticas, como as da família. Mesmo assim, um dia, ela decidiu mandar uma mensagem pela Internet para a direção do Bola Preta.
“A surpresa foi enorme quando me responderam e passaram o contato do presidente. Essa resposta me deixou muito feliz, era um sonho que eu realizava”, afirmou a jovem passista.
Aceita para integrar a tradicional Escola de Sobradinho, Aryellen passou a reforçar a nova geração de carnavalescas brasilienses, em geral, e do Bola preta, em especial. E fez a sua estreia no Desfile de Rua na Avenida das Mangueiras, no Cruzeiro, em 8 de fevereiro deste ano, diante de um público estimado em 10 mil pessoas. Na ocasião, além da Aruc também desfilaram o Bola Preta e Acadêmicos da Asa Norte.
“Eu estava feliz, mas muito nervosa. Minha madrinha nesse primeiro desfile foi Dulce Carvalho, rainha da Bateria da Aruc. Ela me tranquilizou muito. E eu me ispiro nos movimentos e nos passos de Dulce para criar os meus”. Heitor, de 5 anos, e Cecília, 2, estavam entre os torcedores da bonita passista no primeiro desfile oficial na Avenida.
“Para mim, o nervosismo é natural. Estamos falando de uma renovação e da sensação de ver o encanto do Carnaval, de querer ir para a Avenida sem nunca ter visto um desfile em Brasília nos últimos 12 anos”, disse Aryellen.
Essa renovação que se observa com esse hiato de mais de uma década sem desfiles ocorre com as escolas buscando na Velha Guarda, nos pioneiros a memória nostálgica de como era o Carnaval e adaptando aos novos tempos e integrando os jovens participantes a uma nova era.
Preconceitos
Para integrar o grupo de passistas da Escola de Samba Bola Preta, Aryellen passou por maus bocados, entre eles o preconceito religioso.
“Minha mãe gosta de dançar, mas não participa de desfiles, ela é evangélica. Por conta disso, ela e minha família ficaram muito tempo sem falar comigo quando fui pela primeira vez a um barracão de escola de samba”, recorda a passista.
Em seguida, Aryellen passou por preconceito religioso, em casa, principalmente, pois é praticante da Umbanda. “Hoje está tudo normal, minha mãe respeita a minha opção, mas ela não gosta. Mas eu garanto que depois que passei a frequentar a macumba está muito bom, melhorei muito. Foi uma prova de resistência que enfrentei”, afirma.
Preferências religiosas à parte, Carnaval e Umbanda têm, historicamente, forte ligação cultural e nos remete à ancestralidade negra e às religiões afro-brasileiras. Nossas origens nesse sentido estão, também, no gingado das danças, nos cantos e nos batuques dos tambores dos escravos. Como já escreveram, Carnaval “é a fé em movimento na avenida”. E é nesse movimento que Aryellen ingressou determinada, de corpo e intenso sentimento, como revela em seu depoimento.

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