23 de fevereiro de 2026

O som da boa música está na rua e domina o Eixão

Por Hélio Tremendani e José Cruz

É fácil constatar: a música invade as ruas, os bares e ambientes públicos e de lazer da capital da República. E o cavaquinista Márcio Marinho (foto) é um dos que levou a boa batida do samba e do choro, principalmente, para alegrar os domingos no Eixão Norte, um dos espaços de referência dessa fase de Brasília.

Incialmente, Márcio tocou nas esquinas comerciais e musicais da cidade. O público gostou, aumentou e se instalou no gramado do Eixão, à sombra de farto arvoredo, na altura da 207/208 Norte. Esse é o ponto de referência de shows musicais com o grupo “Choro no Eixo”.

Aulas e ensinamentos

O show é dominical, a partir das 12h30. Antes dos acordes do choro, do samba, do axé, da bossa nova, jazz… há uma aula relâmpago que valoriza o repertório e agrega ensinamentos à cultura popular. Num desses domingos, quando “Choro no Eixo” interpretou “Oh, Lua Branca”, Márcio Marinho de Souza explicou, em dois minutos, quem era a autora desse clássico que emociona, ainda hoje:

“Chiquinha Gonzaga (1847-1935), compositora, pianista (na foto) que se tornou a primeira mulher a reger uma orquestra, quebrando os tabus e machismos da época. É de Chiquinha, também, a primeira marchinha de Carnaval, “Oh, Abre Alas”, clássico, ainda hoje, nas folias anuais de fevereiro”.

Ousada, Chiquinha Gonzaga foi do erudito ao popular; foi ativista na luta pela abolição e por isso é exaltada, homenageada e aplaudida nessa aula pública e ao ar livre num domingo de sol forte em Brasília.

Ao dar essas informações para o público, Marinho demonstra o reconhecimento àquela mulher pioneira que ele admira. E, ensinando, ele vai preparando o show que criou com o seu grupo musical, Choro no Eixo.

No rosto do “respeitável público” está a aprovação desse projeto. Não é o ouvir pelo ouvir, é aprender, também, curtindo música de variadíssimos gostos que passa por todas as batidas e embalos conhecidos.

“O show ao ar livre que apresentamos, assim como outros grupos, tira Brasília do palanque de ser a capital do rock, unicamente, e coloca a nossa cidade no valorizado espaço da “capital da música” (Márcio Marinho)

Com vocês…

Mas, quem é Márcio Marinho de Souza?

Conversando, mostra-se um inquieto jovem de 42 anos, atento ao próximo compromisso. Ele fala rápido e sem esconder a sua paixão pela música, o choro, em especial. Os seus longos cabelos encaracolados balançam no ritmo dos shows que comanda, por até duas horas de apresentação.

Márcio Marinho nasceu em Brasília em 28 de novembro de 1984. Ele não entrou no circuito musical por acaso, mas pela convivência familiar. Por parte de pai e parentes músicos, principalmente, com quem acostumou o ouvido desde muito cedo, até se decidir: “É isso o que eu quero”.

“Tenho vários parentes músicos como o Tio Brito 7 Cordas. Esse vínculo vem das reuniões de família, dos churrascos animados por sons de sanfona, cavaquinho, percussão, tudo executado por primos e tios. Me criei nessa efervescência cultural familiar. Cada um pegava um instrumento e ia se revezando. Meu gosto pela música começou nessas reuniões de família, uma festa” – relembra sobre o ambiente que o introduziu na música.

Paixão

“Em 1990, quando estava com seis, sete anos, comecei a ouvir chorinho. No dia em que tocou Lamentos, de Pixiguinha, me apaixonei. É muito lindo. Meu tio Brito 7 Cordas, começou a me ensinar cavaquinho. Era um ensino pela oralidade, não tinha partitura. Depois, na Escola Parque, aprendi música, quando conheci o professor Josué, que me ensinou teoria musical e a ler partituras. Em 1999 e 2000 comecei a tocar trompete, na Fanfarra da Escola Parque, mas nunca larguei o cavaquinho”.

Também em 1999, Márcio atuou como solista do grupo Os Novos Chorões, integrado por Leonardo Benon, Rafael Ferraz, Rafael dos Anjos e Brito 7 Cordas.

Em 2001, Márcio estava como solista no grupo Sorrindo à Toa, comandado por Reco do Bandolim. Leonardo Benon, Rafael dos Anjos, Henrique Neto e Otílio também compunham o Sorrindo à Toa, que chegou a se apresentar para o então presidente Fernando Henrique Cardoso.

Escola do Choro

Nessa sequência, Márcio ficou dois anos na Escola de Música de Brasília. “Eu queria saber mais, mas o ensino era muito lento. Comecei a estudar por conta própria, até entrar para a Escola de Choro. Nessa época, já com 13 anos, participei de outros grupos, como os Jovens Chorões, Só Choro, Choro e Arte… Em casa, a família não acreditava que a carreira de músico me daria algum dinheiro e insistia para que eu estudasse, que fosse para uma faculdade…”

Márcio insistiu com a música e tinha 14 anos quando ganhou o primeiro cachê, 30 Reais. “Fiquei feliz, foi um incentivo. Eu era um garoto e aquilo foi uma motivação muito grande para seguir no aprendizado da música. Depois comecei a ganhar cachês com mais frequência”, recorda.

Em 2003, já com 19 anos, Márcio integrou o Trio Cai Dentro, a partir de um convite de Hermeto Pascoal para que participassem de seu show no Clube do Choro de Brasília. No ano seguinte, o convite foi de Reco do Bandolim para se agregar ao conjunto Choro Livre, um dos mais antigos de Brasília.

Não havia mais retorno naquela realidade do mundo da música. Marinho estava decidido e encaminhado na profissão. Para reforçar ele teve o valioso apoio de “Tia Sônia”, que deu ao sobrinho, quando estava com 14 anos, o seu primeiro cavaquinho, em fibra de vidro.

Depoimento

A seguir, o depoimento de Tia Sônia, que ainda hoje acompanha as apresentações do sobrinho, no Choro no Eixo, principalmente.

“Eu sou Sônia Marinho, tia do Márcio Marinho o artista do Cavaquinho. Márcio tinha 14 para 15 anos quando mostrou vontade de se aprofundar na área musical, tendo uma espécie de queda pelo ritmo do chorinho. Era o ano de 1998 e eu, percebendo essa inclinação para a música, dei de presente para ele o seu primeiro cavaquinho. Encomendei o instrumento numa loja “luthier”, no bairro de Realengo, no Rio de Janeiro. (Luthier é o artesão que constrói à mão um violino ou cavaquinho ou outro instrumento de corda).

Quando Márcio recebeu o presente foi com muita alegria, uma felicidade e emoção enormes, tudo com muita gratidão. Ele tentou estudar na Escola do Choro de Brasília, mas estava com 14, 15 anos e só conseguiu entrar no ano seguinte, em 1999.

O interessante é que o lado da família paterna tem várias pessoas ligadas à música: o pai, tios, primos que cantam e tocam instrumentos musicais. Já do lado da família materna ninguém é ligado à música.

Márcio e seus amigos sempre participaram de eventos na Acadêmicos da Asa Norte e no Bar e Restaurante Tartaruga. Acredito que isso contribuiu para a evolução musical do meu sobrinho.

Graças ao seu empenho, dedicação e determinação ele terminou, no ano passado, o seu Curso de Mestrado em Músico, na UFRJ. Atualmente, é professor de música instrumentista e de História da Música.  Como exímio músico, meu querido e amado sobrinho Márcio é, agora, um sucesso internacional. Ele realiza muitas viagens e shows pelo mundo, apresentando os seus projetos musicais acompanhado pelos seus parceiros de excelência”.

Durou pouco

O primeiro cavaquinho, porém, durou pouco. Certo dia, para defender Márcio numa briga de garotos o primo Luciano não teve dúvidas: quebrou o cavaquinho na cabeça do adversário do primo. “Luciano acabou com a briga, mas eu chorei muito. Meu cavaquinho durou só um ano e meio”, lamenta-se Márcio, ainda hoje. “Mas ainda guardo na lembrança aquele maravilhoso presente da Tia Sônia”.

Com 23 anos o aprendizado e o prestígio de Márcio Marcinho avançavam. Logo ele começou a ser chamado para compromissos maiores, como tocar num show, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo.

Convites e viagens

Mesmo sem material de divulgação, o seu nome e prestígio ganhavam espaço com convites para apresentações em Brasília, no Paraná, no Maranhão e outras praças, também para oficinas de música, sobre o cavaquinho, em especial.

Em 2006, Márcio foi convidado por Reco do Bandolim para lecionar na Escola de Choro de Brasília e integrar o grupo Choro Livre, com o qual tocou  (foto).

Com isso, Márcio passou a acompanhar artistas renomados que se apresentavam nesse consagrado espaço da música, em Brasília: Paulinho da Viola, Paulo Sérgio Santos, Carlos Malta, Dominguinhos, Osvaldinho do Acordeom, Altamiro Carrilho, em um de seus últimos shows, Hamilton de Holanda, Derico, que integrou o famoso “Sexteto”, Danilo Brito …

Os compromissos aqui passaram a dividir espaço com as viagens, realizadas em todos os continentes, com apresentações na Argentina, Peru, Uruguai, Bolívia, México, Dubai, França, Alemanha, Espanha, Inglaterra, Áustria, Xangai…

Desse tempo, Márcio lembra da parceria com Rogério Caetano, uma das referências no violão 7 Cordas, arranjador, produtor musical e compositor. Rogério é bacharel em Composição, pela Universidade de Brasília, e Mestre em Música, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

As Marcianas

Em abril de 2025 Márcio Marinho concluiu o curso de Mestrado na UFRJ, quando apresentou o álbum “As Marcianas”. Trata-se de pesquisa artística autoral que teve como orientador o professor Henrique Cazes, do Rio de Janeiro.

“Nas 11 composições das Marcianas estão as inspirações e influências que eu recebi e que repercuti na carreira”

Inéditas

O título artístico representa a extensão do nome de Márcio, que fixa a identidade do autor em composições inéditas para cavaquinho de 6 cordas solo.

“As Marcianas são um trabalho que demandou uma pesquisa artística profunda, que expande os limites do instrumento e afirma a sua força melódica, rítmica e harmônica na música brasileira instrumental contemporânea”, disse o autor.

“Esse álbum nasceu da cultura do ritmo brasileiro, da memória e dos encontros musicais. O cavaquinho é um instrumento pequeno, mas extremamente ligado à nossa cultura e neste trabalho ele vira melodia, harmonia e ritmo tocados simultaneamente. Este álbum é um convite para viver o Brasil por meio deste som”, disse Márcio, na ocasião da apresentação das Marcianas.

Nas 11 composições que integram o álbum Márcio colocou “todas as influências que adquiriu com o cavaquinho de quatro, cinco e seis cordas. O álbum é, também, uma pequena contribuição para o desenvolvimento da linguagem do cavaquinho de 6 cordas”. A íntegra do álbum está em todas as plataformas musicais nas redes sociais.

Choro no Eixo

Depois da pandemia do Coronavírus, Márcio e outros amigos músicos tocaram por alguns quiosques de Brasília, mas sem receber cachê; a turma ouvia, se divertia e não retribuía.

Gilson Mendes, ativista cultural e empresário conversou com Márcio Marinho que sugeriu “fazer algo no Eixão”. Em contato com “a galera”, ele chamou Dudu, Paulinho do Cavaco, Valerinho Xavier, Tonho e Paulinho. Foi a primeira formação do Choro no Eixo, mas que teve a primeira apresentação num quiosque da 112 Norte.

Atravessar o Eixinho e chegar no Eixão foi um salto. No início as apresentações reuniam 200, 400 pessoas. O público cresceu, passou para mil, 1.500, 2.000 ouvintes. “Tem gente que chega e só vai embora quando guardamos os instrumentos”, diz o sorridente Marcinho, que vê esse projeto como exemplo para fomentar a cultura popular brasileira. “É um modelo, sem dúvida”, diz, contando que o movimento até ganhou patrocínios de peso, como o da Caixa Econômica e do Sindicato dos Bancários de Brasília.

Atualmente, a composição do Choro no Eixo é com Márcio no cavaquinho seis cordas; Valério Xavier no cavaquinho quatro cordas; Dudu Sete Cordas, Breno Alves no pandeiro e Tonho, pandeiro e surdo.

Momento raro

Parceiro das entrevistas para o Memória da Cultura e do Esporte em Brasília, o carioca Hélio Tremendani, um dos fundadores deste site, é também um pesquisador da cultura musical da cidade, onde mora desde 1961.

Para Hélio, na foto conversando com Márcio, Brasília musical vive um momento raro, com conjuntos de samba, chorinho e pagode espalhando-se por vários redutos e influenciando os novos músicos.

“No Plano Piloto e nas cidades satélites estão arrebentando com muito samba, choro e eventos gratuitos. Ouve-se no Metrô, nas ruas do Cruzeiro, da Guariroba, em locais fechados, também. E todos os lugares lotados. A música invadiu as cidades satélites, com grupos de amadores principalmente”, disse Hélio.

Márcio Marinho avalia que esse legado musical é importante para mostrar que Brasília não é criativa apenas nos grupos de rock, como se tornou nacionalmente conhecida. Ele lembra ter crescido ouvindo músicos e cantores consagrados tocando na 410/411 Norte, como o Filhos do Samba, o Sagaz, Amor Maior, grupo de samba e de pagode, Evandro Barcellos, um dos criadores do Clube do Choro, ao lado de Hamilton de Holanda e Alencar 7 Cordas…

“Toda essa turma nos inspirou, influenciou no surgimento de novos grupos e deu outra cara musical para Brasília, com certeza. A música está na rua e essa fase é a melhor de todos os tempos”

A carreira que trilha e o entusiasmo com que conta o seu envolvimento com a música tornam Márcio Marinho uma indispensável referência para os mais jovens.

Márcio, com Hélio Tremendani e José Cruz